Quebra de paradigmas – Câmbio CVT

Quando eu cursava o primeiro semestre da minha faculdade, Informática para Gestão de negócios, eu tive uma matéria que tratava a respeito de questões mais ‘filosóficas’ da área da informática como um todo. O nome da matéria era MPCT – Metodologia de Pesquisa Científica e Tecnológica. Seu conteúdo era bem interessante, mesmo não sendo uma matéria de administração de empresas ou informática diretamente.

Nessa matéria, logo no começo do semestre, o professor passou para nós a leitura de um livro que tratava muito a respeito das ‘Quebras de paradigmas’. No começo, eu não entendia direito o que ele queria dizer com isso. A princípio, eu não sabia exatamente o que ‘paradigma’ significava! O que diabos significa isso?

ATENÇÃO, CLICHÊ IMENSO A SEGUIR!!!

Jogando no google, e acessando o primeiro link, temos: (http://www.dicionarioinformal.com.br/paradigma/)

Significados de Paradigma:

  • Paradigmas são padrões psicológicos, modelos ou mapas que usamos para navegar na vida;
  • Modelo, padrão;
  • Modelo adotado por algumas culturas, ou por costumes de cada região ou povo;
  • O mesmo que padrão, modelo e exemplo a ser seguido.

Pois bem, paradigma é um modelo, padrão que usamos para ‘navegar na vida’, e o meu professor sempre falava na quebra de paradigmas, sempre batendo nessa mesma tecla no início do curso.

Eu sempre encarei essa “quebra de paradigmas” como um “Deixe a sua mente aberta para o novo”, no sentido de encarar a vida. Deixar de ter preconceitos com as coisas, tentar conhecer algo antes de criticar/elogiar (nem sempre isso é possível) e, desde 2010, ano que eu tive essa matéria, nunca houve na minha vida uma “quebra de paradigma” no mundo automotivo. Não houve uma que faria eu realmente rever conceitos ou que mudasse minha maneira de pensar em relação a carros. Darei exemplos:

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Ford New Fiesta: Não gosto dos ‘novos’ Fords. É birra mesmo. Andei num New Fiesta (mexicano, antes de vir o modelo com o powershift). E devo dizer que o carro é ótimo. Acerto de suspensão quase perfeito para uma tocada um pouco mais agressiva sem tirar o conforto de andar nas nossas estradas péssimas. Acabamento muito bom também (para categoria). Minha opinião mudou? Não. Continuo tendo birra desse carro e marca. Com lançamento da versão com Powershift, só piorou a impressão.

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Volkswagens turbinados [AKA APzaum Treskilimei]: Eu tenho alguns amigos apzeiros, mas nunca tinha visto o quão rápido de fato é um Gol quadrado bem preparado. Um dia, estava com a Tracker 2.0 4×4, e me para do meu lado no semáforo um Gol quadrado todo preparado, fazendo graça, acelerando só para mostrar que tinha turbo. Não poderia deixar passar a oportunidade de educar um apzeiro numa avenida deserta. Engatei o 4×4, pé na embreagem, acelerando para deixar o giro próximo do corte. O farol abriu e, até 50 km/h, eu estava na frente. Após isso, o APzaum me humilhou. Mesmo tomando benga, continuo achando que, não importa o que é feito no carro, ele continua não sendo bom.

Ok, vou parar de enrolar:

O fato é que um paradigma, talvez um dos mais polêmicos para mim, foi quebrado. O paradigma do câmbio manual.

Para mim, câmbio manual é (ou era?) A ÚNICA maneira de se ter um câmbio em um carro. Seja ele Dialy Drive ou para final de semana ou qualquer que seja o uso. Na realidade que eu vivo, muito dificilmente terei dinheiro para comprar um carro que seu nível de desempenho exija um câmbio dupla embreagem/Automático. Então, meu paradigma era que nenhum câmbio Automático/Automatizado poderia ser melhor do que eu num câmbio manual. As minhas (poucas) referências automotivas me faziam afirmar isso.

Até que em 26/04/2015 , eu dirigi um Honda Fit EX 1.5 CVT 2008. E aí meus amigos, meu paradigma sobre câmbios automáticos realmente foi quebrado.

Primeiramente, vale ressaltar que minhas referências automotivas não são nem um pouco boas. O melhor câmbio manual que eu já dirigi foi de um Polo 2009. Câmbio Automático, apenas andei em alguns AL4 da PSA/Renault e sempre achei péssimo. O melhorzinho que eu tinha andado foi exatamente de um outro Honda Fit, porém de segunda geração, que não era CVT e sim automático ‘comum’ (conversor de torque). Automatizados foi apenas um iMotion da Volks, que também achei muito ruim, a impressão que eu tinha era que em toda troca de marcha era queimada uma embreagem absurda para não dar tranco e, mesmo assim, o cambio falhava miseravelmente.

Pois bem, meu irmão, comprou um Fit 1.5 CVT 2008 usado, bem conservado. Pediu para eu dirigir o carro e dar as minhas impressões a respeito do modelo.

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Imagem meramente ilustrativa

O trajeto foi algo bem curto, cerca de 10km, mas foi num trajeto que estou bem acostumado a dirigir com o meu carro, perto de casa. Logo na ida, num trecho em aclive, comecei a ver as vantagens do CVT no uso dentro da cidade: com o meu carro manual, utilizo  segunda marcha durante todo aclive (em específico), passando para terceira apenas em aproximadamente 2800 rpm (O meu usual para andar na cidade é trocar de marcha em aproximadamente 2300 rpm… me julguem). O Fit subiu, ganhando velocidade, a 2 mil rpm, praticamente sem alterar rotação. Naquele momento percebi que a volta para casa seria mais interessante para testar o carro. Há 3 subidas de uns 200/300 metros cada (sim, moro no morro, mas prefiro dizer que tenho uma casa na montanha) no trajeto de casa.

Na volta, resolvi testar o carro em uma aceleração forte com o câmbio em Sport. Saindo do farol, até 20km/h a aceleração é bem mediana. Creio que seja por causa do conversor de torque fazendo seu trabalho. O meu C3 1.4, se eu quiser fazer uma saída rápida, é MUITO mais rápido. Mas após 20km/h, o carro virou outro. Acelerei até uns 90 km/h, e a rotação do motor subindo até ficar praticamente estática em 5500 Rpm. O meu paradigma começou a ser quebrado ali.

Na primeira subida íngreme das três, acelerei forte de novo, mas dessa vez com o câmbio em Drive. No final da subida o carro já estava a 60 km/h. No C3, para repetir isso, seria em segunda marcha relativamente perto do corte de giro (isso se meu carro conseguisse chegar nessa velocidade no final da subida). No Fit? 4500 rpm, ou nem isso.

Foi na segunda subida que o paradigma foi quebrado. Comecei a guiar o carro em velocidades que faço no dia-a-dia. na pequena reta antes dessa segunda subida, o asfalto está em péssimas condições. Com o meu carro, venho em terceira marcha, reduzo para segunda para passar a ladeira. No Fit, ocorreu a pior situação possível: No meio da subida havia um ônibus bem lentamente andando no meio da Avenida principal do bairro. apenas controlei no acelerador e o carro subiu sem dar tranco nenhum, sem nenhum solavanco, sem nada que indicasse esforço do conjunto motor e câmbio.

Mas como assim? No meu eu teria que reduzir para 1ª marcha, saber deixar o giro ‘no local certo’ para não dar tranco e, após terminar a ladeira, engatar 2ª marcha. No Fit nada disso foi necessário, não tive trabalho algum, não houve esforço algum por minha parte.

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Essa foi a maldita ladeira, que não parece tão inclinada na foto

Foi ali que meu paradigma a respeito de carros com câmbio CVT foi quebrado de uma vez por todas. Imaginei todas as situações que um motorista sofre no dia-a-dia em São Paulo, por exemplo. Aquele trânsito absurdo das marginais tietê e pinheiros. Aquele anda e pára das 18h todo dia. Aqueles motoristas que tentam mudar de marcha numa ladeira na sua frente, mas não conseguem ou, se conseguem, tem que retornar a marcha anterior porque eles não conhecem curva de torque e potência. Aqueles dia que nós não dirigimos e sim apenas nos locomovemos com os nossos carros sem prazer algum no volante.

Mas eu ainda não me daria por vencido. O CVT é sensacional, mas eu poderia ser melhor que ele no Hypermiling (nome gourmet para economia de combustível)! Só que não. no final desse trajeto, o computador de bordo marcava consumo de 11,8 km/l de gasolina. Dado o curto trajeto (10 km aprox), as duas esticadas com câmbio em Sport e as ladeiras do meu bairro, eu com meu carro JAMAIS conseguiria fazer tal marca. CVT 2 x 0 Câmbio manual.

Mas… E agora?

Depois de muito pensar a respeito de como é uma derrota para um gearhead/petrolhead/entusiasta desejar um carro com câmbio CVT, resolvi aceitar o fato. Sim, é o fim dos tempos. Eu, a pessoa que deseja um Subaru WRX como objetivo de vida, a pessoa que em quase toda redução de marcha faz punta-tacco (é nóis, Bellote!), desejo sim um carro com câmbio CVT! Porém, eu quero um carro desses apenas se eu tiver que ir trabalhar todo dia com ele em uma cidade com muito transito. Por mais que eu goste de carros manuais, infelizmente tenho que admitir que isso é algo ultrapassado.

Cheguei na conclusão definitiva uma semana depois de testar o carro, realizar uns exames:

Por mais que tenha sido divertido esticar 4 marchas na saída do pedágio, não compensa o stress que enfrentei depois, ficando 1 hora travado no trânsito. Mas se for um dia que há transito livre, nada supera um câmbio manual bom. Para o dia a dia, um BOM câmbio automático supera o manual com facilidade.

Já ia me esquecendo:

Meu irmão pediu o meu veredicto a respeito do carro, eis minha resposta:

“Legal o carro, o CVT é estranhão, mas é bom para cidade! Finalmente você comprou um carro bom. Mas eu ainda prefiro o meu!”

JAMAIS vou admitir para o meu irmão que o carro dele é melhor que o meu!