Na ponta dos dedos – Entrevista com Wagner Alves

IMG_20161120_163708858.jpg
Não deixem que a pose mala e a cara de mau enganem, este é uma das pessoas mais divertidas que já conheci

Em continuação ao post sobre como foi a experiência do Salão do Automóvel 2016 ao lado dele, trago agora uma entrevista com um dos membros mais queridos da comunidade AGH. As respostas foram inteiramente enviadas por Wagner e não sofreram nenhuma alteração, mantendo assim seu teor original e garanto que será uma leitura emocionante.

No geral, como foi a experiência no Salão do Automóvel de 2016?

Foi uma experiência mais do que positiva. O último salão que frequentei  foi o de 2012, e as sensações e impressões como um todo não se comparam com a edição desse ano. A começar pelo próprio local do salão, que em 2016 finalmente aconteceu num lugar com infraestrutura bem mais adequada e confortável. Cada minuto das quase oito horas de caminhada valeram demais o esforço. Os estandes, os vários carros nos quais se podia entrar, a facilidade com que se podia circular entre os estandes, mesmo tendo ido no último dia, tudo isso contribuiu para que eu tivesse uma ótima experiência durante minha visita ao salão.

Qual foi maior ponto positivo no evento em sua opinião?

Acho que pra mim, o ponto mais positivo foi o fato de muitos dos carros mais premium, como os Audi, BMW, Mercedes, Porsche, Jaguar, Land Rover, estarem com acesso liberado ao público, ainda que parte das pessoas não saibam se comportar adequadamente, por vezes sujando o interior dos veículos com coisas derramadas no tapete, estofamentos rasgados, botões quebrados, etc. Como para mim, tocar e sentir os carros fisicamente é um fator preponderante para uma boa experiência de reconhecimento, poder entrar nos carros mais luxuosos foi uma novidade mais do que bem-vinda.

Dentre os estandes, quais te agradaram mais e por quais motivos?

Os que mais me chamaram a atenção foram:

Fiat, 500 Abarth, que carrinho bacana, da vontade de sair dirigindo sem rumo, só pra curtir a vivacidade que ele certamente deve ter. Toro 2.4, me cativou pelo espaço interno, o belo acabamento, e a abertura da caçamba diferente do convencional das picapes. Espero que venda muito.

Dodge e Jeep, poder entrar na RAM 2500, sentir sua lataria e os para-choques cromados, as portas descomunais, os pneus monstruosos, o verdadeiro latifúndio de espaço naqueles bancos, o volante enorme e cheio de botões, enfim, o carro me impressionou demais. Na Jeep, pude enfim conhecer o Renegade, que me surpreendeu pelo bom acabamento. Apesar disso, o Compass me ganhou. Senti nele um carro mais requintado, externa e internamente, com um design mais bem resolvido, na minha opinião (sim, cego também pode falar de design). Risos. Ainda na Dodge, Cherokee SRT. O carro exala esportividade, também curti demais. Pude passar as mãos dentro do cofre do V8, sentir alguns componentes, sensacional.

Mas o que mais me deixou em êxtase, boquiaberto, foi ter conhecido o todo poderoso e fodástico Hellcat. Aquele carro, mesmo parado, exala ferocidade e testosterona. Valeu a pena esperar numa fila de 40 minutos pra chegar perto do carro, poder rodeá-lo, sentar naqueles bancos que te prendem de forma tão intensa, que é como se o carro fosse decolar. Pude, inclusive, tocar em uma das polias do compressor daquela usina de 717 cavalos, e imaginar a força com que aquilo deve girar. Em suma, uma verdadeira emoção.

Audi, me fez sonhar, ao poder ter entrado em praticamente todos os RS, em especial a RS6 Avant, RS7, RS3, S8 Plus, S3… Todos maravilhosos do seu jeito particular. Porsche, único que pude conhecer rapidamente foi o 911 Carrera, devido o pouco tempo que restava, mas mesmo assim foi demais. Jaguar , XE (um V6, por favor), XF, F-Type V6, fabuloso.

Mercedes, seus cupês e sedãs endiabrados também me balançaram muito, ainda que não tenha entrado em todos, pois estavam fechados, exceção para um GLA45 AMG, que sinceramente não gostei muito, acho que o A45 teria me conquistado mais. Mesmo assim, estar perto de um SL63 conversível, seu irmão S63, C/E43, não tem preço. Ou melhor, tem sim, e dos mais altos. Risos.

Land Rover, com seus Range Rover espetaculares, em especial o SVR. Que tamanho de rodas são aqueles… Peugeot, único que quis conhecer de perto foi o 208 GT. Seria minha escolha, se as circunstâncias fossem as mais favoráveis pra mim. BMW, embora não tenha também conseguido entrar nos carros que desejava conhecer internamente, pude tocá-los por fora, sendo eles M2 e M3, esse último ocupando uma vaga cativa na minha garagem dos sonhos. Ford, com o novíssimo Edge e Fusion Titanium, apenas reafirmaram minhas preferências mais racionais, em especial pelo Fusion.

VW, Golf TSI sem comentários, seja 1.0 ou 1.4. Se bem que agora, com o Cruze turbo na área, e meu coração que ainda bate forte pelo Focus, fico seriamente indeciso. Talvez, se andasse nos três, eu pudesse me decidir.

Por fim, como citado acima, a GM e seu Cruze hatch com motor turbo, interior mais requintado e com mais equipamentos, uma nítida evolução e aumento na percepção de qualidade, na minha opinião. Também espero que faça grande sucesso. Novo Camaro só conheci por fora, havia muita gente em volta do conversível, e os cupês estavam trancados. Quem sabe um dia eu possa conhecê-lo melhor.

Além desses carros de destaque, tive a oportunidade fantástica de conhecer algumas pessoas especiais, ao visitar o estande da revista Fullpower. O gente boníssima e conhecidíssimo Eduardo Bernasconi, simpático demais, Cadu e Will, integrantes do APC, Amigos por Carros, que gentilmente me cumprimentaram, e o grande ADG, da oficina High Torque, com o qual pude conversar um pouco mais, e ao qual agradeço pela cordialidade e alegria com as quais me tratou.

Já no final do dia, passei por um estande de rodas, onde uma magnífica Gallardo estava calçada com um dos modelos em exposição. Fiquei tão maravilhado com as curvas agressivas do bólido, que tive a cara de pau de pedir para entrar no carro, e me maravilhar também com aquele cockpit espacial. Verdadeiramente sem palavras. Ah, já ia me esquecendo do último destaque, um carro da Stock Car no estande da Auto Esporte. Naturalmente não pude entrar nele, mas pude ter uma ideia do formato daquela carroceria de fibra, do baixíssimo splitter dianteiro, os pneus slicks absurdos de tão largos, bem como o aerofólio animal. Inesquecível.

Bem, esses foram os maiores destaques desse dia, praticamente tudo o que mais me marcou.

Como deficiente visual, sua forma de apreciar, de sentir os carros é de certa forma diferente, você poderia descrever a forma como ocorre sua apreciação por carros?

Sim, eu acredito que a forma com que aprecio carros seja sim diferente. Basicamente, minha percepção física do mundo a meu redor se resume em dois sentidos primordiais, audição e tato. Aos cinco anos, comecei a perder o pouco de visão que eu tinha. Aos oito, não enxergava praticamente nada. O fato é, desde quando me lembro, sempre tive gosto por carros. E em paralelo com minha perda visual, sempre tive instinto de curiosidade, de aprender, de entender, creio que eu sempre tive busca por conhecimento, por descoberta. E a medida em que minha visão ia sumindo, fui explorando cada vez mais meus outros sentidos, em particular o tato e audição.

Por eu já gostar muito de carros nessa época de minha vida, foi apenas questão de tempo até eu realmente passar a pensar pra valer nessas máquinas que despertam emoções. Ou seja, sinto os carros com as mãos, o design, as curvas da lataria, a textura da pintura, o formato dos faróis, para-choques, rodas, grade dianteira, capô, parachoque traseiro, porta-malas. Com a audição eu sinto a fúria do ronco, ouço os sussurrar dos pneus no asfalto ou seu canto agudo e estridente quando se exige mais emoção ao volante, em alguns casos as engrenagens do câmbio. Quer dizer, o carro para mim é quase um ser vivo, orgânico, provido de alma.

Como gearhead, descreva livremente sua paixão por carros.

Paixão é algo engraçado. Muita gente confunde com afeto, carinho. Mas a paixão, penso eu ser algo mais. Algo que tira seu juízo, que te faz sair do controle. Que não dá pra explicar, apenas viver. Assim é essa paixão que tenho por carros, por esse mundo de graxa, óleo, pneu queimado e gasolina. Ela simplesmente existe, sabe-se lá porquê.

Talvez eu nunca viva a sensação do que é ter um carro, poder dirigi-lo pra onde quiser. Mas a vida é tão breve, tão rápida, que eu preferi seguir pelo caminho da emoção. Viver a vida da forma mais leve possível. Escolhi ser motorista, ao menos motorista da minha vida, que é tão passageira.

IMG_20161120_120330118.jpg
Porque ser gearhead é muito mais que só dizer o que visualmente é e o que não é bonito