O vilipêndio dos carros chineses no Brasil

Esse texto será lento e provavelmente irei me perder no raciocínio. Mas, hey, James May aqui. O que vocês esperavam?

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Pegue um café e aprecie uma boa leitura!

Olá, aqui é o James May. Eu sei que nesta página virtual de rede social vocês estão acostumados às estripulias desse gorila que é o Clarkson. Hoje, eu, James May, proponho algo diferente: uma reflexão.

Mas antes, THE NEWS! O Dacia Sandero recebeu novos motores após cerca de uma década e meia. Não sei porque o Brasil foi escolhido para isso, nem porque a Renault está envolvida. Porém, mesmo sem ter provas, mas com fortes convicções, creio que a novidade vai tomar as costas do país tropical como uma gentil brisa romena que será confundida com o sopro asmático do ar-condicionado de um carro italiano antigo.

Agora sim, ao tema desse texto, após ter negligenciado todas as boas práticas do jornalismo moderno que prega textos objetivos com centro da argumentação no início ou alguma listinha engraçada.

Venho aqui, três parágrafos depois, dialogar com vocês a respeito de como as marcas chinesas vem sendo vilipendiadas no Brasil. Vilipêndio significa que elas são deixadas de lado. Um jeito mais polido de dizer que elas sofrem preconceito. 

Lembro-me como se fosse ontem, nos idos de 2009, quando ainda usávamos Orkut e MSN Messenger, de uma enxurrada de novas marcas chinesas no Brasil. Marcas que em sua maioria já foram embora, mas três permanecem insistindo no Brasil: JAC, Chery e Lifan.

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Um dos primeiros mitos das marcas chinesas!

Tive uma experiência muito interessante com Luís Cury, hoje vice-presidente da Chery Brasil, mas na época era o manda-chuva por aqui. Após convidá-lo para um chá em meu jardim de verão secreto, em Sommerset, pegando a A38 até Solihull e virando à direita, fiz uma pergunta bem indiscreta para o executivo: “Cury, esse QQ não podia ser mais barato?” (na época custa pouco mais de R$ 20 mil). Ele disse que “sim, poderia até ser R$ 19.990, mas a rede de concessionários preferiu subir pouco mais o preço para que o público não desconfiasse da qualidade do QQ”.

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Não era um carro robusto, nem muito estável, mas era muito mais completo que todos os carros de entrada nacionais!

Com uma proposta similar, a JAC também chegou ao Brasil. O presidente da marca, Sérgio Habib, é um cara muito esperto para mercado automotivo. Após discutirmos os rumos de sua franquia de casas de esfiha, ele me explicou que preferiu trazer carros completos pelo preço dos brasileiros pelados, exatamente para evitar preconceito com seus produtos. Na época eram o J3 e o J3 Turin. Isso foi na mesma época em que airbag e ABS eram caros opcionais que vinham de série no chinês. 

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Quem não lembra do Faustão fazendo uma grande propaganda da Jac Motors!?

A receita deu certo. O Brasil não é um país em que o público é fiel às montadoras de carros. Quem trouxer o melhor negócio no geral, leva o comprador. Mais baratos e mais equipados, começaram a incomodar gente grande por aqui e apareciam até em alguns rankings. Como temo por minha vida, chamarei de maneira fictícia os membros de “Gente Grande”.

O acontecimentos que contarei a seguir, todos puramente fictícios, ocorreram entre 2010 e 2012, época em que o Brasil era uma máquina de fazer carros. Ok? Ok.

Enfim, em 2011, JAC e Chery se encaminhavam para um ano recorde de vendas. A receita de oferecer mais por menos estava dando certo. Afinal, como bem sabemos, o brasileiro é um povo que adora levar vantagem. Só que essa explosão de carros chineses nas ruas brasileiras acendeu uma luz de alerta nas marcas que fabricavam aqui. Após anos investindo bilhões para compensar a infraestrutura capenga do Brasil, como que uma marca novata ia chegar assim e roubar vendas? Algo precisava ser feito.

E foi: o governo inventou algo chamado “super IPI”. Funcionava assim: o carro chegava da China e, sobre o valor da nota fiscal no porto, aplicava-se o IPI normalmente, variando de acordo com a cilindrada e o combustível da mesma maneira que ocorre com os carros fabricados no Brasil. Só que, caso não viesse do Brasil ou dos amiguinhos em volta dele, mais 30 pontos percentuais deveriam ser aplicados. Assim, do dia para a noite, na base da canetada, qualquer carro chinês passou a ficar pelo menos ⅓ mais caro.

Foi esse o início do calvário dos carros chineses aqui.

Ficou difícil de convencer o público a comprar um carro chinês agora que o produto estava mais caro e perigosamente perto dos preços praticados pelos “Gente Grande”. Desde o início, a qualidade dos carros sempre foi questionada e, de fato, não tinham o mesmo acabamento ou desempenho dos carros tradicionais feitos no Brasil. Mas eram baratos e o preço compensa muita coisa.

Quando se junta qualidade duvidosa e preços altos o resultado é uma queda brusca de vendas. Vendendo menos carros é difícil manter uma grande rede de concessionários, o que traz mais dúvidas quanto à assistência técnica e a oferta de peças de reposição. Junte tudo isso e quem comprou carro chinês tem que enfrentar uma desvalorização maior que de outros produtos, simplesmente por conta do preconceito artificialmente montado sobre os chineses. E se tem uma coisa que brasileiro odeia é perder dinheiro na revenda. Não consigo entender, afinal, os usados brasileiros chegam a custar três vezes mais que na Europa.

Como eu disse, a qualidade era sim menor que a dos rivais, mas eram carros baratos e, todos que dirigi, não me deixaram na mão durante o teste-drive, algo que infelizmente não posso dizer de produtos mais bem estabelecidos no mercado brasileiro. Para algumas pessoas, marca, tecnologia e ultra qualidade de componentes não importa. Se não chove dentro e o ar-condicionado funciona, quanto mais barato melhor.

Só que agora os chineses não são tão baratos assim e vem sendo vilipendiados sistematicamente ao ponto de que eu não entendo porque algumas delas já não desistiram do Brasil. A Geely foi uma que viu o barco afundando e preferiu sair antes que o prejuízo fosse maior.

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Não seria bacana poder comprar um carro desse!?

Eu tenho dó dos carros chineses no Brasil. Pergunte a quem tem um carro chinês. Os donos vão lhe dizer que o carro atende ao propósito e o número de problemas que tiveram não é muito diferente do que o visto em outras marcas. Mas as circunstâncias criadas no Brasil os deixaram praticamente como uma carta fora do baralho. Conheço gente desse país que me disse o seguinte: “Naquela época, eu realmente acreditei que poderia ter um carro honesto, não muito bom, mas barato e acessível. Mas aí a realidade voltou em forma do super IPI”. 

Pra não terminar com um tom fúnebre, parabenizo quem comprou um carro chinês. Foi graças a eles que o Brasil agora se tocou de que itens de segurança devem ser de série e que todos merecem mais conforto e itens de fábrica sem ter que pagar horrores a mais em opcionais. Espero que a situação melhore para os chineses, eles merecem pelo esforço.

Um JAC T5 hoje está mais próximo de seus rivais do que nunca e ainda é mais barato. A evolução dos produtos é constante e visível. Assim como aconteceu com os carros japoneses e depois os coreanos, que também sofreram preconceito à princípio, creio que os produtos da China vão melhorar rápido e o consumidor vai perder esse preconceito em breve dada a grande capacidade dos chineses em evoluir. 

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Pro público que hoje só quer saber de SUV, o T5 não é uma má escolha!

Os chineses são um povo esperto e disciplinado. Não deve demorar até que os carros vindos de lá se equiparem ou até superem em qualidade carros fabricados aí no Brasil. Em menos de dez anos, passaram de “qualidade duvidosa” para “hm, ok” e, acreditem, esse tipo de evolução em menos de uma década é um feito de engenharia imensurável.