Quebra de paradigmas – Não é preciso potência para se divertir

Ao conversar com muitos meus amigos a respeito de como seria o best drive da vida, a resposta e/ou discussões sempre eram as mesmas… O carro tinha que ser forte (para padrões brasileiros). Era necessário um esportivo ou algo bem próximo disso. Quanto ao local, as pessoas falavam que tinha que ser algo muito fora de realidade, como uma estrada de serra na Europa ou algum circuito mítico como Nurburgring Nordschleife…

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Ok, já teve gente que me falou que queria driftar na serra do Rio do Rastro

Eu, infelizmente, também acreditava nisso. Sempre achei que para se divertir com um carro era necessário um local, digamos, especial e um carro esportivo. Até o meu sonho de compra de carro máximo é baseado nisso, um Subaru WRX… Sempre imaginei que, com 270 cv e tração nas 4 rodas, a diversão sempre estaria garantida.

Outra alternativa para diversão ao volante seria ter um genuíno hot hatch. Mas um hot hatch decente e superleve. Nada acima de 1100 kg de peso… exatamente como esse aqui:

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Peugeot 106 GTi

Como bom piloto de teclado que sou, sempre vi a ficha técnica do 106 GTi europeu com bons olhos. Menos de mil quilos e 120 cv, era perfeição em forma de Hatch. O problema em relação a esse carro é que não existe em terras brasileiras, a Peugeot não trouxe para cá,  infelizmente.

Devido a histórico de família com a versão mais pacata desse pequeno carro, em um momento de pura loucura e em tempos de crise, comprei um carro velho para montar um projeto.

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O meu Peugeot 106

A história de como fui comprar esse carro, de como tive essa brilhante ideia de jogar no ralo esse dinheiro sem fim e todas as dores de cabeça que ele me proporciona, contarei em outro post. No momento saibam que o objetivo desse carro é transformá-lo num 106 GTi europeu (ou o mais próximo que dê para fazer disso). Aqui no Brasil temos vários exemplos de 106 que seguiram essa ‘receita’. Um deles é bem famoso, talvez vocês não se lembrem, mas já o viram aqui:

Mas o que tem a ver esse carro francês, velho, cheio de problema elétrico com a quebra deste paradigma? Simples, tudo. Ao comprar esse carro, com incríveis 50 cv, eu sempre tive para mim que esse carro seria zero diversão até realização do swap. Sempre pensei assim. Mesmo leve, ele seria muito fraco para poder proporcionar diversão ao volante.

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Olha a cara de felicidade dele

Mas eu estava totalmente enganado. Fui deixar um amigo no aeroporto de Guarulhos, numa quarta-feira após um longo e cansativo dia de trabalho. Ao deixá-lo, estava voltando para casa sozinho. Já havia passado das 20 horas, eu estava morrendo de sono. Tudo encaminhava para mais uma ida para casa num carro lento, sem emoção alguma.

Tudo começou a mudar quando a minha playlist começou a tocar “Kill the King” do Rainbow (versão ao vivo Cologne, pesquisem). Aumentei o volume para espantar o sono. Chegando na Dutra, o trânsito estava surpreendentemente bom e eu pude andar no limite da via expressa sem problemas. Foi quando o carro começou a me conquistar.

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O 1.0 de parcos 50 cv surpreendeu

Não sei exatamente por qual motivo, se é o acelerador a cabo (estou acostumado a acelerador eletrônico de daily driver) ou volante do motor, mas o giro do 106 sobe muito rápido. A posição dos pedais de freio e o acelerador facilita e muito o punta tacco.

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Aos mais atentos, é um modelo Quiksilver, que tem o bodykit do GTi

Além desse carrinho subir de giro muito rápido e seus pedais são próximos uns dos outros, sua comunicabilidade é muito grande. Achou difícil o termo? Traduzindo: ele não tem um isolamento acústico no nível de carros executivos de hoje e você sente ele vibrar inteiro quando abusa um pouco.

Sem contar a maior vantagem desses 1.0 fracos. Pode acelerar a vontade que:

1 – Não gasta gasolina

2 – Parece rápido, mas ainda estará abaixo do limite de velocidade.

Quando entrei na Anhanguera, essa sim, sem trânsito algum, me senti imensamente livre. Acelerei fundo boa parte do caminho, nas subidas reduzia marcha para não perder o embalo, quando tinha que frear, usava punta tacco. Curvas mais animadas eram contornadas cantando pneu e ainda sim dentro do limite de velocidade da via! Uma ultrapassagem em subida era comemorada como nunca. E a playlist no shuffle estava mais inspirada do que nunca: Motorhead, Metallica, Millencolin, Rainbow, Black Sabbath e mais várias bandas que não me lembro agora…

Em determinado momento percebi que não estava mais com sono e cansado, estava com um sorriso bobo na cara. Aquelas pessoas que passam a 60 km/h num radar de 80 km/h nem foram motivo de raiva como sempre são comigo. Só a oportunidade de executar um punta tacco e sentir que foi encaixado perfeitamente era um prazer a mais na tocada.

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O carro citadino conseguiu surpreender

Cheguei em casa em puro êxtase porque eu sabia que havia tido o ‘best drive of my life’. E também fiquei imensamente feliz, principalmente por saber que a grana gasta no projeto desse 106 havia dado o primeiro retorno em felicidade.

Conclusão

Sempre fui fã de Top Gear, mas quando eles falaram que carros pequenos e ‘lentos’ podem ser divertidos, fiquei extremamente cético, mas depois desse dia tive que concordar com o Captain Slow e o Jeremy Clarkson.

E o maior problema é que, por mais que eu tente expressar em palavras as sensações que tive naquela quarta-feira, não consigo. Cada detalhe da tocada, cada reação do carro em cada curva, cada vibração do carro se tornava algo imensamente bom.

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Em breve, um TU5JP4 no lugar. Mas o 1.0 não decepciona.

Talvez seja a falta de recursos elétrico-hidráulicos naquele carro (direção mecânica) ou sei lá qual motivo. Mas o fato é: Se você tem um carro “lento”, você não precisa andar em uma velocidade perigosa para se divertir.

É como diz aquela máxima encontrada na internet: É melhor dirigir um carro lento rapidamente do que um carro rápido lentamente.