Veredito: The Grand Tour

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Depois de uma série de acontecimentos desastrosos, Jeremy Clarkson, James May e Richard Hammond se uniram em uma nova empreitada, financiada pela gigante de vendas Amazon. Nós já sabemos que a audiência, mesmo que ilegalmente, foi estrondosa. Mas e aí, o programa é isso tudo mesmo? É recomendado para nós, os amantes dos carros?

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O programa segue uma receita padrão: intro, apresentação, alguns comentários, pista de testes (ou alguma reportagem que levará o carro até a pista de testes), conversation street, reportagem especial, intervalo e volta para a reportagem especial. Falarei de cada um destes trechos. E eu não preciso nem dizer que haverão spoilers a seguir, certo? Se não quiser vê-los, pule para o final do texto.

Intro, apresentação e comentários

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A introdução, que tem uma música bem animada (e não é “Jessica”, o que pode soar estranho na primeira vez que você ouve), mostra a localização do GT naquele episódio, o trio andando em carros típicos da região onde eles estão, uma placa dando boas vindas aos apresentadores (sendo que um deles sempre vai ter o nome escrito errado) e o close final, com o drone filmando a tenda e sendo acertado por alguma coisa também regional.

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O Queen tá vindo aí, gente!

Durante a apresentação e os comentários, os três falam sobre o local instalado, fazem algumas piadas sobre (principalmente quando foram para Joanesburgo, onde caçoaram até mesmo do ex-presidente, Jacob Zuma) e dão início a aquela tradicional fala “in our car show this week”. Curiosamente, tudo o que Clarkson fala neste resumo não tem nada a ver com carros, num claro indício para a ironia.

Pista de Testes

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Uma das grandes novidades de The Grand Tour seria não ter uma pista de testes. Porém, por exigência da Amazon, eles arranjaram uma. A pista é considerada a mais perigosa do mundo pois tem uma reta que não é uma reta (Isn’t Straight), áreas de escape não convencionais (uma dá numa subestação e outra num campo de ovelhas), uma curva bem fechada com direito a patrocinadores ao redor (Your Name Here), uma reta com asfalto de baixa qualidade (Bumpy Back Straight) e o formato do vírus Ebola, por isso o nome Eboladrome (mais humor negro que isso impossível), sem falar na casa da senhora que gosta de carros (Old Lady House, antes da Bumpy Back Straight). Está localizada em um antigo aeródromo da RAF em Wiltshire, Inglaterra.

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A cara de sono do American ao dirigir um Fiat

O carro é sempre pilotado por Mike Skinner, competidor americano da NASCAR interpretando o The American, o piloto extremamente nacionalista que pensa que qualquer carro sem um V8 é comunista.

Conversation Street

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Um dos pontos altos do programa, o Conversation Street traz notícias que vão envolver os carros de alguma forma. Além disso tudo, a intro deste quadro é sempre diferente, com o melhor toque possível do humor inglês. Não há muito o que comentar aqui, a não ser que o Hammond sempre faz piadas de cunho sexual e o May tem ideias pouco aceitáveis. As imagens falam melhor por si só.

Celebrity Brain Crash

O Celebrity Brain Crash é uma das várias formas de alfinetar a BBC. Quando apresentavam o Top Gear, existia um quadro chamado “Star in a Reasonably-priced Car”, onde famosos iriam até a pista de teste do Top Gear para cravar o melhor tempo. Quando saíram da estatal britânica, os apresentadores ficaram proibidos de fazer qualquer menção direta ao emprego anterior. Aí que entra o Celebrity Brain Crash, uma forma de chamar celebridades para o programa. Só que elas nunca conseguem chegar na tenda (e nem podem, pois o trio seria processado).

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Engraçado até certo ponto

O quadro discorre de maneira lenta: alguém famoso é chamado, o Jeremy faz aquele estardalhaço tradicional, a platéia aplaude, a celebridade vem, morre de uma maneira absurda, o May pergunta “isso quer dizer que ele não vem?” e o Hammond responde a negativa sempre narrando como o famoso “morreu”. Foi divertido nos três primeiros programas, depois se tornou chato. Não há necessidade de continuar batendo nesta tecla pois todos já sabem que eles não podem trazer convidados para o programa.

Reportagem Especial

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Sim, você esperou muito por isso

Aqui temos a cereja do bolo. O comparativo entre Focus RS e Mustang V8, Miata, 4C Spider e Zenos E10, La Ferrari, 918 Spyder e P1, dentre outras avaliações. Não falarei de todos para não spoilar todo o programa, mas digo que a avaliação do Ford GT40, no sexto episódio, é uma das melhores reportagens automotivas que eu já vi. A forma como o James May explora a história de uma possível parceria entre Ford e Ferrari, que se tornou rivalidade histórica em Le Mans, a pilotagem das gerações do GT40 pelo Captain Slow, a fotografia (que é excelente durante todos os episódios, vale salientar), tudo se completa perfeitamente.

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O melhor especial de fim de ano que você respeita

É neste setor também que temos os desafios, como os Maseratis dos anos 80 que custam o mesmo que um carro zero, o dos carros ecologicamente corretos e muios outros. Isso sem falar nos episódios 7 e 8, passados na Namíbia, onde cada um recebeu um Buggy (carro considerado ruim pelo Andy Wilman, produtor do programa) baseado no Fusca (em teoria), e eles deveriam chegar até Angola com estes carros. O primeiro programa é um pouco massante nos primeiros 20 minutos, mas o segundo é bem especial (e o final é totalmente inesperado).

Polêmicas

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Um novo conceito em imigrações ilegais

No episódio 11, o Jeremy usa búlgaro como assistente pessoal dentro do carro, onde ele substituiria os controles por voz usados em centrais multimídias. No terceiro episódio, Clarkson transformou um romênio num carro autônomo, onde ele ficaria escondido embaixo do banco do carro, pedalando por você. No quarto episódio, Clarkson aprontou novamente, transformando o Hammond num sensor de estacionamento traseiro. Para isso, Richard ficou escondido dentro do para-choque de um Audi TT. O pior de tudo é que ele fez menção a imigração ilegal, o que gerou certo buzz na mídia.

Veredito

Voltando ao início do texto, o programa é isso tudo mesmo? É recomendado para nós, os amantes dos carros?

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“Sim, é bom ou não é?”

Não e sim. E estou sendo bem breve aqui para você correr e assinar a Amazon Prime para assistir The Grand Tour o quanto antes, porque o programa é muito bom. Mas não é nada fora-de-série.

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“Discordo!”

Apesar de ter um estúdio diferenciado, um formato itinerante e novas piadas, se você ler o meu texto, ignorando os parágrafos iniciais e o Celebrity Brain Crash, vai entender que estou fazendo um resumo sobre o antigo Top Gear. E como o antigo Top Gear não existe mais, o que torna The Grand Tour excepcional perante aos concorrentes é o Top Gear ter se tornado medíocre. Mesmo assim, o programa é altamente recomendável.