A vida de um Kartista Amador #001 – A melhor corrida da minha vida

Fala galera, beleza? Começo a série de posts sobre as peripécias de um piloto de teclado, que acha que 1.0 é o carro mais divertido do mundo e que não vê a hora de comprar um carro equipado com câmbio CVT, nas suas corridas de kart.

Todos sabemos que automobilismo é um esporte absurdamente caro. Histórias de pilotos de sucesso que saíram de famílias pobres são nulas. Nós, petrolheads, sofremos com alto custo para praticamente tudo o que queremos fazer. Peças de melhoria de performance são caras, manutenção de carro preparado é cara, eventos de track day são caros (mas que em São Paulo poderiam ser mais acessíveis) e mais uma infinidade de coisas que são empecilhos para que a cultura seja melhor difundida.

Tendo ciência de tudo isso eu, que estou em processo de jogar todo meu dinheiro fora em tempos de crise num Project Car, comecei a pensar em meios de dar aquela descarregada no “Need for Speed“. A solução? Kart!

Além de ter o que eu precisava, que é correr em um circuito, o kart proporciona também a emoção de corrida a um custo imensamente mais baixo do que qualquer categoria do automobilismo nacional. Com qualquer R$120,00 você pode chegar em um bom kartódromo, reservar uma bateria aberta e bater roda com desconhecidos por 30 minutos.

O Campeonato

Comecei a participar de um campeonato de kart amador chamado Pangaré. Um dos maiores e mais antigos campeonatos amadores de Kart que existe em São Paulo. Os karts utilizados são os de locação dos kartódromos. O valor do campeonato por corrida é o valor cobrado pelos kartódromos de uma bateria normal mais R$70,00 de taxa por temporada para o organizador.

Cada campeonato tem seu próprio conjunto de regras. No Pangaré existem uma série de regras para tentar deixar o campeonato mais equilibrado:

  • O campeonato é de pontos corridos por dupla. Igual o esquema de construtores da F1;
  • Não se escolhe kart para correr. É realizado um sorteio. É permitida a troca de kart durante os 5 minutos de aquecimento/classificação;
  • Lastro para todos de 90kg – (tem campeonato que divide categoria por peso). Ou seja, se você pesa 80kg, será adicionado mais 10kg de lastro. Se você pesa 110kg, corre sem lastro;
  • Sessão de classificação apenas na primeira etapa, nas demais o grid é invertido pelo resultado da corrida anterior;
  • Existem 5 baterias correndo: Grupo 1, Grupo 2 (azul e vermelho) e Grupo 3 (azul e vermelho). A cada fim de temporada (6 meses), as melhores duplas de cada grupo é promovida para o grupo seguinte e as piores rebaixadas. Faço parte do Grupo 3 vermelho.

Na ordem do melhor para o pior ficaria assim, sendo que não há diferenças de nível entre o os grupos azuis e vermelhos:

  1. Grupo 1;
  2. Grupo 2 Azul;
  3. Grupo 2 Vermelho;
  4. Grupo 3 Azul;
  5. Grupo 3 Vermelho.
troca20de20grupos
Esquema de trocas para subir nos grupos

Vale a pena conferir o site oficial do campeonato para saber mais sobre as outras regras e olhar o nome das equipes que correm por lá. É cada um mais engraçado que o outro.

A Corrida

A primeira corrida de 2017 ocorreu no kartódromo de Interlagos, no maior traçado disponível, sob constante chuva em todas as 5 baterias, fator completamente preocupante para todos. Por mais que a pessoa goste e tenha ótima sensibilidade, chuva é sempre uma espécie de loteria. Você pode fazer tudo certo, mas o cara de trás/frente não e rodar na sua frente, ou te jogar para fora da pista porque errou o traçado. Acontece. Mas em Interlagos mesmo tivemos uma demonstração de como correr na chuva um tempo antes:

Bom, deu pra ver que na chuva o traçado ideal é BEM diferente do traçado de seco, certo?

Com isso em mente, fui para o sorteio de karts. Acabei pegando um que, observando os tempos do pessoal do Grupo 1, os melhores do campeonato, estava uma carroça. Já sabia que seria necessário trocar. A minha dupla também.

Na classificação nem fiz uma volta lançada. Entrei no kart, não completei a primeira volta e voltei para os boxes para troca. Realmente, o kart não freava bem e estava falhando quando pisava fundo. Fiz o sorteio de novo e saí correndo para tentar fazer uma volta pelo menos.

O problema que são apenas 5 minutos de classificação. No final não realizei nenhuma volta lançada, acabando por ficar no fundo do grid, largando em 22º:

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Além de mim, minha dupla largou em último porque também trocou de kart e um outro amigo nosso em penúltimo. A corrida não poderia ter começado pior.

Meu pensamento para a corrida era manter a calma e e ganhar posições a partir de quem cometesse erros. Andar com calma sem errar para não piorar mais ainda a situação no campeonato. Se eu beliscasse um top 10 estaria no imenso lucro.

Antes de eu dizer o resultado, vejam o video da corrida filmada pelo minha dupla. Eu sou a pessoa que está usando um colete azul escuro a frente dele:

A abertura já da pra ter noção do que acontece nas corridas né?

A largada comecei bem, sendo ultrapassado por fora lindamente. Me xinguei em silêncio porque logo na primeira curva não segui traçado de chuva e já perdi posição.

  • Durante toda corrida vocês irão ver muitas pessoas rodadas/rodando. Interlagos na chuva é isso aí;
  • Aos 3’56” fui prejudicado por uma pessoa que rodou, minha dupla passa ilesa. Essa é a loteria da chuva;
  • 4’5o”: Meu parceiro faz uma ultrapassagem sensacional por conta de tracionar melhor em saída de curva;
  • 6’43”: Ultrapasso minha dupla num movimento kamikaze (freei muito depois) e ele me ajuda absurdamente na curva seguinte. A partir daqui a nossa dupla começa a fazer a corrida impecável;
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Nunca é demais agradecer o parceiro após uma ajuda!
  • 14’1″0: Começo a fazer a ultrapassagem mais tensa da corrida para mim. Tive que jogar o kart na borracha, saiu de traseira muito forte na curva de alta e na frenagem quase rodou de novo.

Infelizmente o cartão de memória do meu amigo ficou cheio no final da corrida. Shit happens.

No final eu olhava no placar e achava que estava entre 3º e 5º, ao ser dado a bandeira branca (última volta), parti como louco na tentativa de passar quem estava a minha frente. Na penúltima curva percebi que seria possível emparelhar no final da reta oposta. Como fiquei atrás da pessoa, teve muito spray e não vi o ponto de frenagem, erro de principiante, admito. Acabei travando a roda e batendo na pessoa que estava a frente. Resultado, ultrapassei ele na última curva da última volta graças ao toque.

Não pensei duas vezes, devolvi a posição. Eu tinha certeza que iria tomar punição caso continuasse. Não se passa alguém batendo na última curva da última volta na luta pelo pódio (ou pelo menos eu achava que era para beliscar um 3º lugar).

Final da corrida todos os meus amigos que correram em baterias anteriores me parabenizando e falando que se eu tivesse passado o cara, teriam invadido a pista em comemoração. Perguntei o motivo e a resposta foi um baque:

“Você estava em segundo lugar, passou o primeiro e devolveu”

Foi um choque. Não tinha essa noção que eu tinha ido tão bem. Fiquei absurdamente feliz com o resultado, mesmo a vitória tendo escapado. É um campeonato de equipe, meu parceiro terminou em 4º, resultado perfeito considerando a posição que largamos.

E pelo menos fiz a melhor volta da prova:

Race Results.JPG

Todas as minhas voltas:

Lap times.JPG

Nos próximos posts tentarei gravar as corridas no meu ponto de vista!