A vida de um Kartista Amador #002 – Kart Cross Arujá

Fala galera, beleza? É uma espécie de consenso em todo o staff AGH que o Rally e todas as categorias provindas do off-road são as modalidades do automobilismo que agrupa os pilotos mais insanos do planeta. Sempre tive vontade de ter uma experiência de pilotagem off-road de velocidade, mas qualquer uma das opções no Brasil são absurdamente caras e/ou destruiria a suspensão do meu Peugeot.

Mas isso mudou um pouco com o surgimento do Kart Cross Arujá. De repente se tornou possível eu guiar uma gaiola num circuito de terra, no mesmo preço de uma bateria de kart, R$120,00 (valor de Fevereiro/2017).

ATENÇÃO: ESSE POST NÃO É PATROCINADO! (mas nada que um e-mail não resolva, entendeu @Kart Cross Aruja?)

E aproveitando: Esse post não tem por objetivo ser um review do local, apenas irei contar o que um piloto de teclado, que acha que anda bem de kart, teve de impressões ao andar no estabelecimento.

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Pista do Kart Cross Arujá

No caminho para o local da corrida vim discutindo com um amigo meu como seria questão de câmbio e embreagem no Kart Cross. Para nós dois era novidade o negócio. Segundo o site, todos as gaiolas são equipadas com motor de moto com 250 cm³ e câmbio de 6 marchas (Hell yeah!). Como deveriam ser as trocas? Teria pedal de embreagem ou seria igual ao kart shifter? Como seria a alavanca do câmbio? Seria na coluna de direção? Seria câmbio de moto? Muitas duvidas que só deixavam a ansiedade maior para andar.

Ao chegar no local adicionei mais um motivo pelo qual se vende tanto SUV nesse país. A pista fica dentro de um local que cria cavalos (mas que não é um Haras, que p*rra de nome é?). E devido as chuvas de janeiro foi meio difícil para o meu pacato C3 subir até chegar no estacionamento. Uma pena eu não ter um Aircross… [Ironia detectada]

Ao chegar no local percebo logo de cara que tudo é bem menor do que parecia ser nas fotos. As instalações são bem simples, banheiro, sala de briefing e quase todas as construções são feitas em contêineres. Maneira excelente para reduzir custo, e pra quem estava prestes a andar na terra o que eu menos queria era chegar num lugar gourmet.

Mas o maior choque foram os veículos que iríamos usar. Olhando as fotos eu acreditava que as gaiolas eram MUITO maiores do que realmente são, as imagens traduzem melhor o sentimento:

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Expectativa
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Realidade

Todo mundo que estava lá a primeira vez ficou receoso com o tamanho das gaiolas: será que elas aguentariam o tranco?

O momento do briefing foi muito importante. Além das regras básicas de bandeiras, a organização do Kart Cross foi extremamente atenciosa no briefing. Compilo as principais informações passadas aqui:

  • Na bateria são dados 5 minutos de aquecimento, para sentir a pista e a gaiola. Após isso será dada bandeira verde e serão mais 5 minutos de qualify. Após definição do grid de largada, será dada 1 volta de apresentação e, se todos estiverem alinhados um atrás do outro, será dada a largada em movimento. 20 minutos de corrida (por causa da volta de apresentação o tempo total de corrida fica na casa dos 17 minutos);
  • As marchas são extremamente curtas. Todas. Velocidade máxima de 70 km/h;
  • Não é necessário esticar tanto assim as marchas. O torque máximo vem aos 6500 RPM então não precisa andar sempre em giro muito alto (motor de moto, gira mais que carro, galera);
  • O câmbio e embreagem são de moto sim. Em neutro, engata-se a primeira marcha empurrando a alavanca para frente e as demais para trás. Igual aos câmbios sequenciais de carros de corrida;
  • Quem tem experiência pode sim trocar de marcha no tempo (não consegui nenhuma vez =/);
  • O kart se comporta melhor nas curvas fechadas se reduzir bem as marchas. A curva 1 é feita em 2ª ou 3ª. Não utilizar a marcha correta nessas curvas faz o kart sair muito de frente;
  • Todo e qualquer dano nos karts que não fosse possível arrumar na oficina deles, eles mandam a conta para a pessoa que abusou demais e fez algum dano mais sério (concordei totalmente nisso).
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A gaiola pode ser pequena, mas a ansiedade estava muito grande

Escolhi o meu kart, me arrumei com um pouco de dificuldade no cinto de 4 pontos e, enquanto aguardava a ordem de saída dos boxes, tentava me familiarizar com o layout de tudo.

  • A gaiola é sim apertada. Um pouco claustrofóbica até para quem tem mais de 1,85 m de altura;
  • O local da alavanca de câmbio fica realmente muito próximo ao local de carros de competição, não fica na coluna de direção;
  • O layout de pedais é igual ao de carro comum, mas graças a coluna de direção, pé esquerdo na embreagem e pé direito controlando freio e acelerador. Não tem como frear com o pé esquerdo lá. Aproveitei para praticar o punta-tacco, fácil de fazer (pelo menos com ele parado, hehehe);
  • Não existe painel, você tem o volante e, onde ficaria em carros comuns o painel, uma chave para controlar a ignição. Botão de partida elétrica fica ao lado, onde mais ou menos ficaria a chave de um carro comum;
  • Retrovisor bem pequeno, imaginei que poderia usar bem ele durante a corrida. Know nothing, innocent.

Ao ligar a ignição do kart, escutei na hora a ventoinha ligando atrás de mim em velocidade máxima. Liguei o motor dando uma acelerada generosa e percebi o quão alto seria o barulho do motor durante a corrida e o quão rápido o giro do motor subia. Enquanto aguardava a ordem de saída para o aquecimento, a organização usava um caminhão pipa para molhar a pista.

Começa a sessão de aquecimento e eu mais preocupado em decorar o circuito e começar a entender como funciona a aderência. Diferente de corrida no asfalto, não dá para utilizar toda a largura da pista para fazer uma melhor tangência. Os lados mais externos da pista tem muita pouca aderência e fazem o kart sair muito de traseira.

O fato de existir um câmbio com 6 marchas muda TUDO em relação a um kart de aluguel. Principalmente na curva 1, um cotovelo para a direta precedido da maior reta, era necessário reduzir de 6ª marcha para 2ª, eu não conseguia fazer punta-tacco para todas as reduções de maneira correta. Nas outras curvas era possível, porque eram no máximo 2 reduções de marcha, mas na curva 1, onde eram necessárias 4 reduções, eu não conseguia.

Começou a classificação e eu estava andando longe das outras pessoas, sem qualquer referência, quando de repente um maluco me passa por fora numa curva feita em 4ª marcha, não pensei duas vezes, fui na mesma tocada. No final ele fez P1 e eu P2. Corrida prometia.

Na volta de apresentação tentei deixar a distância de 1 kart entre eu e o primeiro colocado. Se ele errasse eu teria como reagir e passar ele. Novamente não gravei vídeo da corrida, mas um amigo levou a câmera dele e filmou tudo:

  • 2’15”: Saída para aquecimento;
  • 15’3o”: Saída para volta de apresentação. Sou do kart que está a frente do que filma, reparem no leve tranco que ocorre na minha saída. Não consegui modular a embreagem nas saídas;
  • 17’25”: Largada;
  • 20’48”: O cara rodado na entrada da curva 1 sou eu;
  • 33’00”: Final de prova, olha a presepada que eu e quem filma aprontam…

A Corrida

Mesmo na classificação eu já tendo começado a acelerar mais, na corrida que eu fui para o “Maximum Attack”. Adotei a filosofia do “Win or Wall”. Eu sabia que se eu não errasse, eu conseguiria induzir o primeiro colocado ao erro e passaria ele. A pista, como é possível ver no vídeo, não tem muitos pontos de ultrapassagens, é mais estreita do que parece e o piloto não tem visão do bico da gaiola, o que torna a aproximação um pouco difícil.

Outro ponto muito importante é que, quando a pista vai secando começa a subir muito pó e a visibilidade vai piorando aos poucos, sem contar o barro que fica na viseira do capacete e quando você limpa com a mão e suja todo o resto.

Obviamente a minha estratégia não deu certo e quem rodou na abertura da 4ª volta fui eu. Depois disso fiquei a corrida inteira atrás do kart que postei o vídeo acima, não conseguia passá-lo de jeito nenhum (minha maior deficiência em corridas).

Na última volta ainda fui ultrapassado por fora na última curva, tinha ficado tão feliz com a existência do retrovisor que fiquei a corrida inteira sem reparar nele, outro erro cometido, só fiquei olhando para o adversário a frente e não me preocupei em defender a minha posição

Resultado

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Conclusão

As gaiolas do Kart Cross Arujá são quentes, apertadas, a visibilidade é baixa, direção absurdamente dura, você sai muito cansado mas afirmo com plena convicção: é a melhor sensação que tive até hoje relacionada a automobilismo/carros. 

O kart sai de frente se você usa marcha muito alta para curva, ele sai de traseira se você não sabe dosar o pé e saber onde tem mais aderência, o câmbio curto e com 6 marchas faz você trabalhar muito mais do que no kart normal, a exaustão física é enorme mas é o brinquedo é sensacional.

Eu errei mais punta-taccos do que acertei. Como estou acostumado a fazer em trajetos urbanos e em velocidades compatíveis com a via, ao tentar fazer isso no Kart Cross percebi que é muito mais difícil, o movimento do pé precisa ser muito rápido e, como o giro sobe rápido, bem curto. Por várias vezes eu fazia o movimento e acabava acelerando o kart ao tirar o pé da embreagem.

Diversas curvas eram feitas com uma mão no volante apenas, porque era necessário trocar de marcha no meio dela e quando é necessário fazer uma redução com punta-tacco numa curva em descida, quem não está acostumado (eu) acaba se atrapalhando. Óbvio que isso era algo que eu quis fazer por frescura mesmo, fazendo acertando todos não iria me dar um resultado melhor, foi algo que fiz para me testar mesmo.

Recomendo a todos os amantes de carros e automobilismo a fechar uma bateria lá e conhecerem, é simplesmente sensacional, num valor justo pelo equipamento. Eu não vou conseguir colocar em palavras a experiência absurdamente boa que tive lá. Se kart cross é assim, fico imaginando como deve ser um estágio de Rally e uma prova de Rallycross.