Desabafos GearHeads – Dirigir um carro antigo foi a melhor coisa que fiz

Eu não vou mentir que gosto muito de dirigir meu carro. Sair por aí sem destino é uma das coisas mais bacanas que gosto de fazer com ele e tento fazer isso sempre que possível. Gosto de atacar uma curva com mais vigor, acelerar um pouco, sentir o carro em si, é muito gostoso, é meu carro e a sensação sempre será muito boa e, apesar do carro não ter a maior tecnologia do mundo (afinal é um carro de 2001), ele tem certos mimos, como acelerador eletrônico, airbags, freio a disco nas quatro rodas, ar condicionado (que não funciona, mas conto que tem), vidro elétrico e direção hidráulica, além do conforto que o carro me proporciona.

O primeiro rolê de guincho a gente nunca esquece

É legal, ter um carro confortável assim tem sempre suas vantagens, sei que ele não é o mais confortável e sei que não é o pior, já dirigi diversos carros então sei um pouco do que estou falando, mas toda essa enrolação vem por um motivo: dirigir um carro “velho” foi umas das melhores experiências que tive nos últimos dias.

Os carros de hoje acabam sendo tão automatizados, com tanta tecnologia embarcada, que as vezes praticamente nos esquecemos como que o carro funciona, aquele negócio de cada carro ter sua personalidade praticamente não existe mais. Hoje você bate a chave e o carro liga, antes existia todo um ritual para conseguir liga-lo, não era algo tão simples, o que acaba criando uma conexão entre o dono e o carro e até tornando aquele carro único, diferente e só seu.

Não é bem esse tipo de conexão que eu falo

Uma vez precisei deixar meu 206 na oficina para manutenção, como o dono da oficina é um grande amigo meu, ele acabou deixando o carro dele comigo, um Uno. Na hora que peguei o carro já vi um mundo totalmente diferente, completamente simples, apenas com o necessário e o carro já tinha seus vícios. Quando liguei o marcador de combustível estava na reserva. Sem problemas, fui lá e abasteci com o necessário para ir trabalhar, coloquei o famoso vintão e na hora que ligo o carro o marcador sobe instantaneamente para o topo. Fiquei confuso mas tudo bem, sabia que com aquele combustível ao menos daria para chegar ao serviço e voltar.

Quando entro na estrada que eu realmente fui perceber que estava num Uno. Acostumado com meu 1.6, na hora que entro na rodovia por mais que pisasse o carro não andava (ainda bem que não estava atrasado), demorei um certo tempo até me acostumar com potência mas cheguei no serviço em tempo e pronto. Na hora de ir embora já estava mais acostumado e, por mais simples que ele fosse, não era um carro de todo ruim, não tinha o conforto de uma BMW mas andava suave, não havia barulhos internos, o motor estava redondinho (carro de mecânico, o motor e suspensão estavam impecáveis), nunca um carro tão simples me deu tanto conforto e tranquilidade em rodar.

Eis o unão raiz que pude dirigir!

Além deste Uno, no último Interclubes tive a oportunidade de dirigir o Chevette do nosso amigo Bruno Graf, que ele tinha acabado de restaurar. Abro um parênteses aqui para elogiar o ótimo trabalho dele, uma restauração impecável, sem detalhes na lataria e um motor funcionando perfeitamente. Não foi apenas uma voltinha, foram várias, mas já na primeira volta meu mundo caiu. Fui tirar o carro de um lugar para deixar em outro, até aí tudo bem, na hora de ligar o carro a chave não virava, descobri que ela tem um modo certo de encaixar. Beleza, liguei o carro, dei uma volta rápida e estacionei, só que na hora de parar o freio de mão não ficava de jeito nenhum, aquele botão da alavanca não voltava, entrei em desespero e o pior era que o dono não estava lá.

Deixei engatado na primeira, tranquei o carro e fiquei por ali, quando ele voltou, contei a situação e ele me responde “ah, isso é normal, todo Chevette faz isso”, e só no final do dia, depois de várias outras voltas, que o Bruno me ensina como “resolver” o problema. Teve uma outra hora também em que tive que abrir o capô e, meus amigos, que capô pesado era aquele? Foi um esforço que jamais havia feito na vida e foi aí que entendi porque o Chevette é tão manco, po**a, o carro é todo feito no metal bruto, mas eu adorei o carro, teria um fácil, não sei se para usar no dia-a-dia, mas mesmo assim, no final do dia eu queria muito ir para casa com ele.

Como foi daora dirigir esse Chevette

Tudo bem que, em ambos os casos, peguei carros de dois profissionais que sabem o que estão fazendo, carros praticamente impecáveis, onde era só bater a chave que ligava. Mesmo assim, a simplicidade de ambos, os “segredos”, tudo isso me cativaram de uma maneira inexplicável, um sentimento que só quando você se atenta para o carro que está dirigindo, quando sai da caixa e esquece que você não precisa de toda essa tecnologia para dirigir, você se conecta ao carro, aprende a ouvir o que ele quer dizer para você, acaba se tornando parte dele.

As vezes estamos em um modo tão automático que não nos damos conta e acabamos fazendo tudo da maneira padrão. Por alguns momentos eu pude realmente dirigir aqueles carros, não só acelerar, trocar de marcha e virar. Recomendo a todos fazerem o mesmo, eu garanto que vocês não irão se arrepender.