A renovação da FIAT chama-se Argo

É certo que a FIAT perdeu o rumo no Brasil. Desde o ano passado, quando viu sua liderança de mercado ser tomada pela Chevrolet, a fabricante italiana não soube como reagir. Toda a movimentação da concorrência no segmento em que ela sempre dominou deixou a subsidiária brasileira desnorteada. Mas aí uma certa negociação caiu do céu…

FCA
Uma união que veio para somar

Em 2014 a Fiat comprou a Chrysler e o que teve de projeto intercambiado entre os dois conglomerados não tá no gibi. O Grupo FCA estava formado e as reações vieram aos poucos, não só em outros países como no Brasil também.

Uno Sporting 2015
O Uno de 2014/2015 ganharia um visual mais invocado

O Uno sofreu uma reestilização em setembro de 2014, mudando pouco do lado de fora e bastante do lado de dentro. Era o padrão de qualidade FCA chegando aos modelos compactos que, apesar de não ser a melhor coisa do mundo, já era superior ao que a FIAT fabricava no país. Mesmo assim, não engrenou.

Toro
O lançamento da Toro serviu para nos mostrar o quanto a FIAT evoluiu depois da compra da Chrysler

No segundo mês do ano passado surgiu a pick-up Toro. Puxando muito do imrão de plataforma, o Renegade, a Toro conseguiu mais espaço no mercado do que a Oroch, e foi bem recebida pela qualidade construtiva, tanto interna quanto externa. Foi o primeiro grande acerto da empresa, mas o segmento dos compactos continuava defasado.

Mobi
O Mobi chegou cedo demais e não estava apto para ser competitivo

Em abril de 2016 a FIAT decide entrar no segmento dos subcompactos, uma jogada arriscada para o Uno e boa para a fabricante, que poderia utilizar o preço base do Uno no Mobi e deixar o hatch maior mais caro. Com um motor antigo e um aproveitamento de espaço pior do que o seu concorrente direto, o Mobi não engrenou.

Bravo
O Bravo andava mais esquecido que a sua ex

O Bravo saiu de linha porque seu segmento vem recebendo pouca atenção desde o surgimento dos SUVs. O Punto foi perdendo espaço por ser um carro cansado (ele foi lançado em 2005 na Europa). O Palio ainda segue a filosofia da FIAT de modelos pelados com uma enxurrada de opcionais que ninguém escolhia. Isso sem falar em tantos outros modelos que carregam o peso dos anos: Doblò, Idea e Weekend já estão com dias contados. Os acertos viriam a seguir.

Uno Sporting 2017
O modelo 2017 do Uno mantinha boa parte do visual, mas mudou bastante nos motores

Em setembro do ano anterior o Uno recebeu novos motores e começou a se distanciar do Mobi. Com uma oferta de opcionais mais enxuta e versões mais equipadas, o Uno ganhou os holofotes, muito por conta da versão Sporting com o motor de 109 cv, que trouxe um pouco de diversão para o hatch de 1.055 kg.

Mobi Drive
O emblema “drive” faz toda a diferença

Passando para novembro, o Mobi ganharia o motor que realmente deveria ter desde o início. Apesar do modelo equipado com o antiquado Fire continuar em venda, a versão com o motor 3 cilindros que ganhou destaque. Após uma série de promoções, o Mobi tomou a liderança de onde não quer desgarrar mais.

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Argo me chamou atenção nessa foto

A cartada final da FIAT é o Argo. É com ele que a fabricante de Torino pretende chamar atenção para o segmento dos hatches, atuando numa ampla faixa de preço, do Onix LT 1.0 até o 208 Griffe.

O que o Argo perde em relação à Palio, Punto e Bravo?

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Não se iluda: o teto preto é só pintura

A maior ausência do lançamento é algo que ninguém notou: falta do teto solar, item disponível até no Palio. Por mais que seja um item supérfluo, é tradição da FIAT trazer teto solar em seus carros, ao menos nas versões esportivas. Isso é algo que nem o Argo HGT possui, nem como opcional. Resta aguardar se uma futura versão T-Jet do automóvel trará o recurso, que já está na prancheta de planejamento tomando como base o propulsor 1.3 turbinado.

Outra ausência perceptível é a falta do ar-condicionado dual zone. Por mais que o Argo comece como um hatch relativamente acessível, ele termina com preços de segmento premium, onde já existe o 208 com o seu climatizador de duas zonas. Um de seus antecessores, o Bravo, já possuía como item de série.

LED Argo
LED só no Argo 1.8. Sem projetor e sem DRL.

A nova tendência está no LED nos faróis, presente no Argo. Apesar disso, trata-se apenas de luzes de posição, os LEDs de iluminação diurna ficaram de fora. A dupla parábola, presente desde as versões mais baratas, é algo louvável mas uma lente com projetor cairia bem, item este presente também no falecido Bravo. Peugeot 208 e Hyundai HB20 já possuem o recurso.

O que o Argo ganha em relação à Palio, Punto e Bravo?

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A multimídia está presente como item de série desde o Drive 1.3, mas pode ser equipada no Drive 1.0

A multimídia, herança do Grupo FCA, é muito mais intuitiva do que aquela telinha de 5 polegadas utilizada no fim da vida do Punto e do Bravo. Além disso as opções de conectividade aumentaram, com espelhamento da tela do celular via Android Auto ou Apple CarPlay. O mais interessante é que esse recurso já vem de série desde a versão Drive 1.3 e é opcional no modelo equipado com o motor 1.0.

Painel Argo
O painel do Argo segue as boas qualidades da Toro e do Renegade

O painel, outra boa herança da FCA, traz mostradores bem visíveis e completos. Se nas versões mais baratas o computador de bordo lembra o que estreou no Uno de 2015, a versão HGT troca a telinha minúscula por um display colorido de 7 polegadas já presente na Renegade e na Toro. Este é um salto tão grande quanto o que o Stilo Abarth deu em 2003, ao disponibilizar um computador de bordo com tela de cristal líquido colorida, ainda que pequena, nos opcionais.

Argo HGT interior
O painel tem um acabamento que agrada visualmente

O volante tem inspiração na Dodge, o painel tem acabamento rebuscado, os botões do console central seguem o visual presente nos Audi, as saídas de ar laterais lembrando o estilo usado pela Fiat européia e a tela da central multimídia rendeu muitas comparações com o Mercedes-Benz Classe A

Aletas Argo
A chave do limpador do para-brisa é a mesma do Palio 2012

Foram três parágrafos em que eu falo dos pontos positivos do Argo sem sair do seu interior, mas apesar de tantas qualidades velhos hábitos continuam: as hastes atrás do volante são as mesmas do Palio de 2012, compostas por um acabamento bem sem vergonha. Mas são pequenos detalhes que não destoam completamente do conjunto.

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O Argo dissecado

A melhor mudança está no aspecto segurança. Além do ISOFIX ser de série desde o Drive 1.0, a plataforma reaproveita apenas 20% do que havia no Punto para criar algo novo. Dessa mistura chegamos na MP1, base que servirá para o sedã X6S, a picape X6P e o SUV X6U (saudades do tempo em que no lugar de um utilitário teríamos uma perua). A MP1 aproveita a dirigibilidade afiada do Punto e completa o pacote com 7% a mais de rigidez a torção e 8% mais rigidez a flexão que a de sua base. Claudio Demaria, diretor de engenharia da FIAT, afirmou que o Argo tem a carroceria baseada em 25% de aço comum, 55% de aço de alta resistência, 10% de aço de ultra alta resistência e 10% de aço estampado a quente.

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Os dois motores FireFly, já disponíveis no Uno e Mobi

As motorizações também ficaram mais enxutas. São apenas três opções, todas bem distantes umas das outras. No 1.0 três cilindros são 77 cv a 6.250 rpm e 10,9 kgfm a 3.250 rpm, no 1.3, temos 109 cv a 6.250 rpm e 14,2 kgfm a 3.500 rpm e, finalmente, a versão HGT conta com o E.torQ 1.8 de 139 cv e 19,3 kgfm que recebeu comando de válvulas variável e perdeu o tanquinho de partida a frio. Os valores apresentados são sempre no álcool.

Com quase o mesmo comprimento do Punto, o entre-eixos do argo consegue ser ainda maior, de 2,521 m contra 2,510 m do seu antecessor. O porta-malas tem 300 litros de capacidade e só perde para o Renault Sandero com seus 320 litros.

E o que tiramos de conclusão disso tudo?

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Argo Drive 1.0, o modelo dos frotistas de luxo

O Argo tem bons atributos para concorrer no mercado nacional. O Drive 1.0 já vem equipado com ar-condicionado, direção elétrica progressiva, travas elétricas, vidros elétricos dianteiros e sistema start-stop, por R$ 46.800. Adicionando a central multimídia, esta versão tem tudo para possuir um grande volume de vendas. O calcanhar de Aquiles está no desempenho. Além disso, o carro não possui alarme como item de série, problema recorrente desde o Palio de segunda geração.

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Argo Drive 1.3 com câmbio automatizado GSR

A versão Drive 1.3 tem tudo para ser a mais vendida. O carro consegue ser equilibrado em preço (R$ 53.900), itens de série (os mesmos do Drive 1.0 com o acréscimo da central multimídia Uconnect) e desempenho. Este carro tem tudo que o brasileiro emergente quer e por mais 5 mil reais você ainda leva câmbio automatizado, controles de tração e estabilidade, assistente de partida em rampa, retrovisores externos com repetidores de seta e função tilt-down, luzes de cortesia e vidros elétricos traseiros. É a versão com o maior potencial de vendas, mas o preço esbarra em concorrentes com motores maiores.

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Pra quem Precision de Argo sem o visual esportivo

A Precision é o modelo HGT sem toda aquela fantasia esportiva. A coluna de direção ganha ajuste de profundidade, os faróis ganham LEDs diurnos e as rodas são de 15 polegadas. Por R$ 61.800 é um preço já salgado a se considerar e ainda é preciso pagar 6 mil a mais para ter acesso ao câmbio automático da Toro.

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Argo HGT com câmbio automático convencional de seis velocidades

Por fim, o HGT será o modelo mais desejado, mas o preço de R$ 64.600 pelo manual ou R$ 70.600 pelo automático é proibitivo. Rompendo a tradição dos Sporting, o interior não permanece vermelho com o carro sendo Azul Portofino, por exemplo. As coisas boas também vieram: as molas são mais rígidas, a relação de câmbio é mais curta e as rodas são maiores, de 16 polegadas com aro 17 opcionais. Além disso o computador de bordo conta com a já falada tela de 7 polegadas. Interessante é o resgate da sigla HGT, usada no Brasil apenas para o Brava entre 1999 e 2002. Curiosamente, ele também usava um motor 1.8 de 16 válvulas.

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Esperamos que a sigla HGT esteja bem representada

A FIAT vem seguindo a cartilha para reconquistar o público brasileiro. De certa forma ele também substituirá o Bravo, que acabou saindo de linha sem previsão para um sucessor direto. Os preços não são dos mais agradáveis mas, ainda assim, o Argo tem um alto potencial de vendas. Resta saber como ele irá se portar com a chegada do Polo.