Você conhece o motor twincharger?

O motor twincharger incorpora o melhor dos dois mundos, utilizando a turbina para altas rotações e o compressor até que a turbina encha. Sendo assim o turbo-lag é eliminado já que o supercharger trabalha em baixo giro. Hoje vocês irão conhecer os 32 carros (sim, é só isso) que possuem esta configuração (de fábrica) em seus motores e ainda saberão o porquê dessa peculiar receita não estar disponível em mais modelos.

Nissan March Super Turbo

O Nissan March da geração K10 utilizou um motor com turbo e compressor em apenas 10 mil unidades

Com apenas 10.000 unidades feitas em 1989, esta edição limitada do pequeno March é um lobo em pele de cordeiro. Já existente numa configuração turbinada, o Micra, como é chamado em outros mercados, recebeu um compressor do tipo roots rodando a 0,7 kg de pressão para ajudar nas baixas rotações, tornando-se o primeiro carro twincharged produzido em massa. Com a turbina rodando a 1 kg, o 1.0 de quatro cilindros rende 111 cv a 6.400 rpm e 13,26 kgfm a 4.800 rpm. O detalhe mais interessante dessa mistura está no chassi, de apenas 2,3 m de entre-eixos e 740 kg.

Lancia Delta S4

O voador Lancia Delta S4

Todos conhecem o Lancia Delta. O icônico carro italiano vencedor de ralis é muito lembrado em sua versão HF Integrale, mas pouco se fala do S4. Trata-se de um monstro de quatro cilindros que não tem nada a ver com o Delta além do visual. Com a necessidade de um carro para o Grupo B, a Lancia chegou num Delta com base encurtada e câmbio ZF à frente do novo motor Abarth com turbina e compressor. Com 5 kg de pressão os italianos chegaram aos 1.014 cv, mas a versão mais conhecida trabalha a 2,5 kg e gera 487 cv a 8.400 rpm e 49,97 kgfm a 5.000 rpm num chassi de apenas 970 kg.

Lancia Delta S4 Stradale

O interior do Delta S4 Stradale era extremamente luxuoso em relação ao HF Turbo

5 vezes mais caro que o Delta HF Turbo, a versão de rua do Delta S4 disponível entre 1985 e 1986 conserva o chassi do tipo spaceframe feito com tubos de cromo-molibdênio e uma liga de alumínio, coberto por painéis de fibra de vidro, mas contém um interior bem mais requintado. Há sistema de som, revestimento em Alcantara, volante em suede, direção elétrica, ar-condicionado e computador de bordo. O motor foi amansado, gerando apenas 250 cv a 6.750 rpm e 29,67 kgfm a 4.500 rpm, mas o sistema de tração integral com três diferenciais permaneceu. O central manda até 30% do torque para o diferencial dianteiro, que é aberto, e os outros 70% vão para o diferencial de deslizamento limitado na traseira. Foram construídas apenas 200 unidades como forma de homologar o carro no Grupo B.

Zenvo ST1

O hipercarro dinamarquês é uma insanidade sobre rodas

Fabricado entre 2009 e 2016, o supercarro dinamarquês, que ficou famoso pela facilidade ao entrar em auto-combustão, conta com números assustadores até hoje. O V8 6.8 twincharged possui 90º entre as bancadas e produz 1.119 cv a 6.900 rpm e 145,82 kgfm a 4.500 rpm, tudo isso num corpo de 1.668 kg. Com tração traseira, o hypercar dinamarquês conta com 0 a 100 km/h de 3,0 segundos, 0 a 200 km/h de 8,9 segundos, e máxima de 375 km/h Apenas 15 unidades foram vendidas, todas com preço começando em 660 mil euros.

VW 1.4 Twincharged

Este é o TSI que não conhecemos

Este 1.4 TSI (Twincharged Stratified Injection), que nunca esteve disponível no Brasil, é baseado no 1.4 FSI, de injeção direta e aspiração natural, e surgiu em 2005. Disponível em versões de 140, 150 (exclusiva do SEAT Ibiza Mk 4), 160, 170, e 180 cv, a mais interessante é a de 185 cv a 6.200 rpm e 25,50 kgfm a 2.000 rpm disponível exclusivamente no Audi A1. Aqui há uma curiosa aplicação, com o compressor trabalhando da marcha lenta aos 3.500 rpm até que um bypass desliga a unidade e deixa apenas a turbina fazendo o seu trabalho. Esteve disponível nos Volkswagen Golf Mk 5 e 6, Jetta Mk 5 e 6, Touran, Passat Mk 6 e 7, Sharan Mk 2, Tiguan, Eos, Scirocco Mk 3 e Polo Mk 5. Além desses o Skoda Fabia Mk 2 e os SEAT Ibiza Cupra e Alhambra usam o motor 1.4 Twincharged.

Audi SQ7

O monstro da Audi tem mais de 90 kgfm

Aqui temos a configuração mais fora da casinha de todas. A Audi deve ter pensado “ok, temos um carro de 2.330 kg e queremos fazer uma versão esportiva dele, onde iremos priorizar nossos estudos?”. Com certeza a resposta foi um alto e sonoro “TORQUE!”. Temos um V8 4.0, Diesel, bi-turbo e com um compressor elétrico. O resultado? 441 cv a 3.750 rpm e insanos 91,77 kgfm a reles 1.000 rpm. O carro tem mais de noventa quilos de torque em marcha lenta. Desculpa, não sei mais nem o que comentar aqui.

DDMWorks Ariel Atom

Conheça o Ariel Atom encapetado

O Ariel Atom não tem uma configuração de fábrica com motor twincharger, mas por ser praticamente um kit car abriremos uma exceção por existir um kit com essa disposição técnica. Disponível em 2012, o Atom modificado pela DDMWorks aposenta o Honda K20 para utilizar um 2.0 ECOTEC turbinado e com compressor mecânico. O resultado? Versões com 456, 583 ou 710 cv. É isso mesmo, o kit mais insano da preparadora americana rende 710 cv e 56,08 kgfm num carro de chassi tubular e 660 kg de massa. Consegue ser mais insano que o Audi que falei logo acima.

Volvo T6 e T8

Da esquerda para direita: V90, XC90, S90 e V90 Cross Country

Neste caso temos um motor turbo com um compressor que equipa toda uma gama de veículos. São 320 cv a 5.700 rpm e 40,79 kgfm a 2.200 rpm no 2.0 quatro-em-linha à gasolina. Com sistema semelhante ao 1.4 TSI, aqui temos um compressor Eaton atua até as 3.500 rpm, quando a ECU desacopla a sua polia por um sistema eletromagnético e deixa a turbina BorgWarner trabalhar a partir daí com pico de 1,6 kg. Tanto o V90, quanto o S90, o V90 Cross Country e o XC90, compartilham este mesmo powertrain. Mas quando estes modelos quando utilizam a designação T8, o conjunto mecânico tem a adição de um motor elétrico de 88 cv no eixo traseiro. Sendo assim, temos 8 carros só nessa seção.

Jaguar C-X75

O carro certo na hora errada

Este carro conceito de 2010 é o mais obscuro de nossa lista. O quatro cilindros de 1.6 litro, com turbo e compressor, é inspirado na F1 e por isso vai até os 10.200 rpm tranquilamente, gerando 509 cv a 10.000 rpm. Aliado aos dois motores elétricos de mais de 390 cv, temos 862 cv e 101,97 kgfm. Os números garantem 0 a 160 na casa dos 6 segundos, enquanto que a máxima teórica é de 350 km/h. Outras primazias ainda incluem sistemas de amortecimento e aerodinâmica ativos eletronicamente, gerando até 200 kg de downforce no aerofólio retrátil. Ainda assim, é possível rodar 60 km no modo 100% elétrico. Infelizmente teve sua produção cancelada em 2012 devido à crise econômica e, pior, nunca mais ouvimos falar deste brilhante motor.

Se é tão bom, por que é tão pouco utilizado?

Além da dificuldade maior na manutenção de um motor com dois tipos diferentes de sobrealimentação, o compressor também rouba potência do motor por estar conectado ao virabrequim. O sistema bi-turbo consegue resolver, em partes, o problema do turbo-lag usando um sistema mais compacto e mais fácil de trabalhar. Diferentemente do motor twin-turbo (turbinas gêmeas), no motor bi-turbo as turbinas não necessariamente têm o mesmo tamanho. Logo, uma delas poderá ser menor para encher mais rápido enquanto que a outra poderá ser maior para dar mais elasticidade à usina de força.

Twincharger da Volvo em corte

Apesar disso, a Volvo insiste na tecnologia utilizando um sistema que desativa o compressor a partir de uma certa rotação. A Audi prefere seguir outra vertente, usando o compressor elétrico que tem a vantagem de não utilizar o virabrequim como apoio, semelhante ao princípio que já existe com a direção elétrica. A chama dos motores twincharger parece mais viva do que nunca.