Quando cheguei aqui, tudo isso era carburado!

Como um bom lasanheiro, comecei mais um dia com uma sessão de busca por carros que ninguém queria e, de preferência, que não passassem dos R$ 7 mil. Reparei que muitos carros com cerca de 20 anos estavam nos resultados. Da parte francesa, me espantei com Renaults Scenic e Clio aparecendo, assim como alguns Peugeot 206 e outras drogas pesadas características desse final de década de 90, onde os franceses e japoneses começavam a se estabelecer por aqui.

Obviamente eu sou bem mais velho que vocẽs, então escutem o tio numa viagem pelo túnel do tempo. Meu pai sempre foi um ser muito roleiro, era difícil ficar mais que dois anos com o mesmo carro. Não porque ele queria fazer dinheiro, mas parecia que o motivo dele era completar aquele livro “1001 Carros Para Dirigir Antes de Morrer”, pois teve de tudo. De Fuscas a desejados Escorts XR3. Poucas foram as vezes em que ele trocou de carro por motivos financeiros.

Numa delas, lembro-me que ele havia se desfeito de um carro que, no início da década de 90, tinha menos de 10 anos de uso. Naquele tempo, isso poderia significar Passat ou Voyage, não lembro com certeza.

Lembro que ele estava atrás de uma Brasília que, naqueles tempos, era um carro com menos de 20 anos uso geralmente e ele fora dono (se lê “fôra”, pretérito mais que perfeito, busquem conhecimento). Fomos ao Anhembi, como era comum naquela época, mas meu pai não achou nada interessante. Estávamos a bordo do Passat TS 80 do meu vô (essa veia maconheira vem de longe), voltando para casa.

De repente, eu avisto uma Brasília encostada no fundo de uma loja de carros. Geralmente os fundos da loja guardam os carros que têm pouca saída. Os chamarizes ficam na porta. Falei para meu pai no alto da minha infância: “tem uma brasília ali”. Meu pai fez “oi?” e montou nos freios do Passat.

Voltamos à loja e lá estava a Brasília vinho que seria nossa por vários anos. Lembro vividamente até hoje dos pneus Maggion Falco 2 que estavam nela e aquele Bordô meio desgastado pelo tempo. Depois da aquisição, meu pai trocou esses pneus e repintou o carro inteiro na garagem do meu vô com um compressor de ar caseiro. Foi nesse dia que eu escutei a frase “pintura boa não pode ter aspecto de casca de laranja” pela primeira vez na vida. Hoje, tenho que ver essa pintura nem tão caprichada assim em carros 0km.

Mas olhem que coisa louca. Eu, hoje, 2018, olhando carros de 20 anos de uso, estou vendo modelos com injeção eletrônica, geralmente já com ar-condicionado e direção hidráulica e, não raro trazerem já airbags ou freios com ABS.

Meu pai, mais de 20 anos atrás, procurando um carro naquela altura já com 20 anos de uso (então 40 anos no total) estava vendo uma Brasília. Carburada, insegura, retrógrada em qualquer sentido objetivo hoje que não seja a nostalgia ou a coleção.

Um “raio X” para vocês terem uma ideia do que estamos falando.

E isso nos serve de ensinamento. Sim, os carros hoje são mais chatos de mexer, dão muito problema elétrico, são mais delicados em certos aspectos e dão várias tretas que um carro antigo nunca teria. Mas parem um instante para admirar o fato de, hoje, podermos comprar carros com bom conforto e certa segurança por um preço tão baixo. É incrível como alguns carros estão acessíveis e entregam muito.

Imagine um mecânico dos anos 90 tentando desvendar os mistérios de um híbrido modernão!

Então, não reclamem tanto de Scenic com pintura ruim por 7 mil. Reclamem de Fusca recém-saído de uma restauração “banho de tinta e banco de couro” por 20 mil.

Nesse momento vocês devem estar imaginando que eu estou pregando contra os carros antigos. Não estou, inclusive tenho orgulho de ter uma extensa frota de modelos relevantes para a indústria brasileira na garagem. Só queria chamar a atenção que, hoje, você não precisa abrir mão de conforto e segurança se precisar comprar um carro usado e barato. Algo que nossos pais e avós precisaram fazer diversas vezes.

Me redimindo, perdemos algo em toda essa evolução. Há quatro décadas, aceitávamos que um carro era uma máquina. Naturalmente não seria algo extremamente confortável. As soluções daqueles tempos para “amenidades” eram quebra vento e banco com molas. E ainda acho que é tudo o que precisamos. A visibilidade da Brasília era incrível, assim como o aproveitamento de espaço. Eu acho isso bem mais importante para segurança que uma luz que pisca no espelho pra te avisar que você está fazendo merda.

Como eram simples, qualquer um poderia aprender a mexer, os procedimentos eram amplamente divulgados até em jornais e revistas. Hoje, precisamos de softwares, laptops e cada vez menos as montadoras querem que você mexa em seu próprio carro. O carro está virando uma geladeira, senhor@s. E em breve será elétrico como a peça da cozinha. Isso se ainda nos deixarem dirigi-los.

Passar bem.


O texto acima é contribuição de um Amigo GearHead que está a muitos anos no ramo automotivo, mas preferiu não se identificar. E se você tiver algum texto ou algo que acharia interessante ser publicado aqui, nos mande um e-mail: contato@amigosgearheads.com.br.