O fim das corridas chatas? Regulamento 2019 promete trazer os anos 90 de volta!

O ano de 2017 trouxe a maior mudança em termos de dinâmica dos carros desde o início da era híbrida em 2014, houveram uma série de mudanças sensíveis no regulamento que trouxeram a f1 para um novo nível de velocidade e de bandeja a quebra de uma série de recordes de pista e de velocidade média.

As principais mudanças em 2017 foram:

O aumento da bitola dos carros de 1800mm para 2000mm (a bitola é a distância entre a ponta de um eixo e a outra oposta, quanto maior a bitola mais progressiva é a transferência de peso para a roda externa a curva, garantindo mais estabilidade).

Os pneus ganharam também mais largura passando de 245mm para 305mm na frente e na traseira foi de 325mm para 405mm e algumas mudanças no perfil da construção dos flancos.

As carrocerias tiveram mudanças substanciais nas dimensões máximas aumentando em virtualmente todos os sentidos e liberando de forma quase irrestrita o desenho dos sidepods e das áreas limítrofes das asas do carro.

Todas essas mudanças garantiram um aumento dramático na aderência mecânica dos carros portanto para garantir que toda essa aderência extra fosse usada, houve a liberação quase que total de diversos pontos no que toca a questão aerodinâmica.

Com isso, os carros ficaram mais largos porém, as asas cada vez mais complexas e mais brutalmente eficientes trouxeram um curioso porém esperado efeito colateral, os carros não podiam mais correr tão perto pois a turbulência e o ar quente gerado pelo carro a frente desestabilizam e sobreaquecem bastante o carro perseguidor, levando a ausência quase que absoluta de disputas roda-a-roda que tanto agradam os fãs. Os fãs reclamaram, e muito.

Após essas referidas críticas feitas pelos fãs durante a primeira metade da temporada de 2018 sobre a forma que ocorria as disputas em pista a FIA e a FOM buscaram encontrar um balanço melhor entre a velocidade dos carros e a proximidade entre eles visando aumentar o espetáculo da corrida em 2019.

Em essência o que mudou para as regras de 2019 para facilitar as ultrapassagens foi uma radical mudança nas regras do desenho aerodinâmico dos carros.

A maior mudança foi a simplificação e a modificação das dimensões da asa dianteira juntamente com as laterais da asa sendo padronizadas e a retirada dos flaps nas áreas superiores da asa dianteira. Tal conjunto de mudança vai levar a mudança na filosofia dos desenhos dos carros, que vão buscar direcionar o fluxo de ar para a parte de baixo do carro(onde é menos sensível aos vórtices desordenados do ar sujo nos carros a frente) ao invés da parte de cima da carroceria.

As mudanças no tamanho das asas dianteiras foram um tanto quanto radicais, elas vão aumentar de 1800mm para 2000mm, vão ter um comprimento 25mm maior, e mais 20mm de altura e fazendo que a turbulência do ar sujo que sai detrás do carro seja liberada mais alta do que é atualmente é, gerando assim uma dispersão maior do ar sujo em uma área longe do carro de trás, garantindo corridas mais acirradas.

A retirada dos flaps superiores nas partes externas da asa dianteira vai tornar impossível a criação dos vórtices gerados pelas atuais e complexas asas dianteiras e seus apêndices aerodinâmicos que buscavam melhorar a aerodinâmica da parte externa da carroceria.

Essa mudança vai buscar encorajar a aerodinâmica “inwash” que é a filosofia de desenho aerodinâmico que busca direcionar o fluxo de ar para a parte de baixo da carroceria, ao invés da abordagem atual “outwash” que é altamente sensível ao ar sujo deslocado pelo carro da frente , impedindo assim que os carros batalhem de forma realmente próxima.

Foram impostas também limitação na quantidade de “strakes”* embaixo das asas, o número passou de de 5 como é em 2018 para dois em 2019, buscando assim reduzir a incidência de desenhos aerodinâmicos do tipo “outwash”

*strakes são superfícies retas e puramente aerodinâmicas muito semelhantes a difusores, que buscam estabilizar o fluxo de ar atrás da superfície em questão para gerar um fluxo ordenado nas partes anteriores da carroceria e maximizar o downforce, tem como efeito colateral gerar mais ar sujo nas laterais e atrás da carroceria

Houve também o banimento em 2019 das winglets( ou pequenas asas numa tradução livre) nos dutos de freios e nos eixos soprados* visando diminuir o fluxo de ar nas partes externas da carroceria e diminuindo o downforce e ar sujo

*eixos soprados são o aparato aerodinâmico que se utiliza do escoamento rápido do ar trazido pelos dutos de resfriamento dos freios que passa pelo meio do eixo da roda, aumentando drasticamente a velocidade do fluxo em direção as bargeboards aumentando assim a downforce na traseira do carro

Outra grande mudança foi a mudança nas dimensões e no desenho das bargeboards , que foram baixadas em 150mm (numa tentativa de diminuir o seu poder de direção do fluxo de ar) e movidas para frente em 100mm para fazê-las menos sensíveis a perturbações no fluxo de ar gerados pelos carros a frente.

Houve também grandes mudanças nas dimensões da asa traseira, passando de 950 mm de largura em 2018 para 1050 mm em 2019, e juntamente com a adição de mais 20mm de altura devido ao espaço da abertura do DRS.

A abertura do DRS saiu de 65 mm em 2018 para 85mm em 2019. Juntamente com o aumento da largura e altura da asa, essa mudança vai fazer o DRS ficar mais 25 ou 30% mais eficiente, visando assim mais ultrapassagens nos circuitos que tem retas muito curtas em relação ao sistema atual. A FIA vai revisar também a distância das zonas de DRS nos circuitos para maximizar os efeitos dessa mudança.

A última grande mudança na asa traseira foi que as placas laterais da asa traseira não vão poder mais ter apêndices aerodinâmicos horizontais complexos e nem “guelras” entre as placas da asa traseira. Esses apêndices juntamente com a “guelra” equalizavam a pressão entre as faces internas e externas da placa lateral e davam um fluxo de ar mais rápido no topo da asa traseira gerando mais downforce, porém introduzindo assim mais um aparato que acabava por gerar ar sujo atrás do carro e dificultando a performance do carro atrás.

Em resumo, tais mudanças podem gerar uma mudança radical na forma como as batalhas em pistas são travadas, com uma pequena porém possível chance da retomada das épicas batalhas dos anos 90 e começo dos anos 2000, devido ao fato que os carros de 2018 têm muito mais aderência mecânica em relação aos carros de 2017, porém não conseguem andar muito próximos devido a uma grande dependência da aerodinâmica para poder extrair o máximo dessa aderência mecânica extra.

O regulamento de 2019 veio para mudar esse quadro, que ao meu ver era necessário para evitar verdadeiras “procissões” em pista como foi o gp do Canadá de 2018, porém no final das contas somente o tempo, o curso do desenvolvimento no final desta temporada e os testes em Jerez de La Frontera em 2019 vão dizer se esse conjunto de mudanças foi bom e se vai influenciar na grande mudança de regulamentos de 2021.