Por que a VW parece estar matando o Golf aos poucos?

Estamos em junho e só agora o muito atrasado facelift do Golf chegou. Parece desinteresse, mas todos têm culpa nessa história, inclusive você

A essa altura do campeonatos vocês já leram diversas manchetes sensacionalistas dizendo que a VW apresentou o Golf 2018 com um mínimo de alterações visuais e ficou R$ 15 mil reais mais caro. Há um pouco de verdade nisso, mas muito caça-clique para dizer a verdade.

Na real, mataram o Golf básico manual, oferecem só o automático com algumas coisas a mais e jogaram o preço lá onde nenhum Polo poderá jamais chegar.

“Mas quem é você mesmo?”

Não importa, se importasse você lembraria quem escreveu a matéria que você leu sobre o Golf 2018, não é mesmo?

Primeiro: o que mudou de verdade?

Nada. Se você esperava alguma mudança significativa no Golf 2018 vai esperar mais um pouco. A VW optou por manter os mesmos conjuntos motrizes da linha 2017. Então continuam os 1.0 tricilíndricos turbinados como no Polo com até 128 pocotós, 1.4 turbo de até 150 cv e o 2.0 do GTI que tem duzentos e trinta não-importa-mais-quantos-cavalos-porque-você-perderia-a-carta-de-qualquer-jeito cavalos.

Se você quiser um número exato porque gosta de jogar supertrunfo com os amigos sobre carros que você nunca vai comprar, o Google está aí pra isso.

Aí vêm os câmbios. Quer um Golf manual? Vai pra Cuba, é mais fácil que aqui. Só existem duas opções, ambas automáticas. Tem o DSG de sete marchas para o GTI e o tiptronic de seis marchas do New Beetle para todo o resto que não tem grana para o GTI. Mas verdade seja dita: o tiptronic ainda é um bom câmbio automático, só não é tão bom quanto o DSG.

Mudança real/oficial que realmente faria alguma diferença em sua vida, só essas, o resto é cosmético para deixar o Golf minimamente mais atrativo sem parecer parado no tempo. Brasileiro não compra carro que não muda.

Segundo: não estão matando o Golf, só querem que você compre o Polo

A plataforma MQB do Golf faz milagres para a VW. Com basicamente as mesmas peças e linhas de produção do hatch, você faz qualquer coisa, sua imaginação é o limite. Mas tem um preço. Usar a MQB pura não é barato. É uma baita plataforma, não tem carro com MQB que seja meia boca. Mas sai caro.

Em mercados maduros, onde o carro é comprado por qualidade, segurança ou qualquer premissa que realmente faça sentido e o carro sai mais em conta que aqui, tudo bem. Onde não há dinheiro nem para asfaltar rua, é difícil de vender, sem sair no prejuízo.

E é aí que a VW se rendeu à realidade. O Golf é caro de produzir aqui, mesmo já sendo bem mais simplificado em relação ao alemão e ao mexicano que chegaram a ser vendidos por aqui.

O Golf é caro em todos os quesitos que 90% dos compradores não se importam, como qualidade de construção e prazer ao dirigir.

Mas mesmo na Europa foi preciso ter uma versão simplificada da MQB. Não para mero corte de custos, mas para os carros da base do mercado, onde os compradores se estapeiam por centavos de diferença no quilômetro rodado em longo prazo. Entra em cena a MQB A0, a MQB simplificada. Lá, para pegar o mercado de base onde cada centavo conta. Aqui, no Polo, um hatch “compacto-médio premium” que encosta em R$ 80 mil.

Faça as contas. Pra que a VW vai te vender Golf MQB a 78 mil se ela consegue vender Polo MQB A0 a R$ 80 mil, que ainda é mais barato de fabricar?

Terceiro: Golf MK8 já está no forno (e a VW BR não tem ideia do que vai fazer)

Aprendam uma coisa: quando estamos falando de carros mega de entrada ou o famigerado “para países emergentes”, a engenharia brasileira de qualquer montadora tem participação importante, garantida e respeitada. Quando o assunto é fazer carro barato, secretamente marretado, mas que seja bom de loja, ninguém nos supera.

Quando o assunto é Golf, não.

E vamos lembrar que essa cara nova do Golf MK7 era para ter chegado em 2017, então já está um ano atrasado. Essa é a importância do mercado brasileiro para o Golf. Lembremos também de que a oitava geração do Golf já está sendo desenvolvida, mas ninguém sabe direito o que sairá de lá. Vamos ter que esperar essa maré de 20 SUVs que a VW vai lançar até 2020 para ver.

Sou capaz de encontrar minha chave 10mm no cofre do motor, mas não consigo dizer que a VW atrasou o golf 2018 “sem querer”. Mercado em crise não é território para carro médio, ainda mais numa realidade onde SUV é rei. Além disso, o novo Golf pode demorar mais que o esperado e o BR pode não estar a fim de lidar com mais uma mudança nessa geração do Golf, que não vai dar retorno.

Quarto: a Variant é o melhor SUV de 100k do mercado

A Golf Variant também ficou mais cara (dã) e fica custando qualquer coisa entre 102 mil e 115 mil, dependendo se você quer a CL (Comfortline), a GL (Highline) ou a GLS (Highline com opcionais).

Posso citar nomes aqui? Vamos fingir por um minuto que a Golf Variant é um SUV que custa uns 100 mil. Quantos SUVs dessa faixa tem sete airbags, motor turbo, porta-malas de mais de 600 litros, anda como o Golf e passa facilmente dos 15 km/l (g) na estrada?

Poucos, podem procurar. Eu já perdi meu tempo fazendo isso. Se a Golf Variant fosse chamada de SUV (nem precisa ser, só tem que tapear aquele sub-executivo de contas daquela agência hypada de publicidade da Vila Madalena), ela estaria vendendo mais que o Jeep Compass, que é mais caro, flex, aspirado, mais beberrão e tem menos bagageiro nessa faixa de preço.

Quinto: das (auto) conclusões

Se você realmente gosta e quer um Golf, recomendamos aqui no AGH o GTI dos alemães ainda, Highline hatch com o DSG de caixa úmida, o Comfortline 1.0 manual e a Variant (qualquer uma), mas usados.

Comprar um Golf 0km hoje é um exercício de bom gosto (e boa situação financeira) que poucos irão fazer. Até porque o Polo topzera do rolê tem o mesmo motor e câmbio do Golf básico com mais equipamentos. A Variant então, praticamente mais fácil ver um unicórnio passeando nas ruas.

Mas, apesar de parecer que VW quer apenas matar o Golf, esse movimento é friamente calculado. Eles sabem que o segmento do Golf está morrendo, sabem que o dólar alto vai botar na bunda pressão nos preços e, principalmente, sabem que o Polo vende mais e dá mais lucro no final das contas. E vai saber quando chega o Golf MK8 e quais desafios ele trará?

Mas o Golf é o carro-chefe da VW há décadas e o Brasil não pode simplesmente abrir mão dele. O que VW fez na linha 2018 foi dar um respiro no apelo de vendas, ajustar sua oferta de versões para o que o mercado quer e colocar um preço no limiar do impagável, mas ainda possível caso alguém REALMENTE queira um Golf. Vendendo poucas unidades, não dá prejuízo e assim ele permanece respirando por aparelhos até se ter uma solução melhor.