Palio Weekend morre e mostra que nossa sociedade gearhead faliu

Com a linha 2019 nas lojas, Palio Weekend vem só na versão Adventure. Em quase 30 anos de mercado, a VW Parati só se viu realmente ameaçada uma vez: entre 1997 e 2000, com a primeira geração da Palio Weekend e, em 2018, ela morreu, assim como sua principal rival fez há alguns anos.

A Fiat apresentou a linha 2019 da Weekend (nem Palio chama mais, coitada) e só a cara e aventureira Adventure está disponível, já custando uns R$ 80 mil. O que é muito se você parar pra pensar que sua plataforma está em linha desde 1996.

Isso quer dizer que é oficial: não existe mais perua compacta sendo vendida no Brasil. “Mas a Adventure não é perua?” vocês perguntam. Se a Fiat quer vender a Weekend como aventureiro, não pode vendê-la como perua. Não dá para ter os dois.

A culpa é minha, sua, das montadoras e do mercado capitalista

A morte do segmento das peruas é algo que já vínhamos acompanhando há pelo menos 10 anos. Desde as primeiras investidas das minivans no início da década de 2000. Com Merivas e companhia, havia uma opção maior, mais prática e mais cara às peruas tradicionais. Mas com um visual que não agradava tanto e uma dirigibilidade bem mais “civil” que a das peruas.

E por que a culpa é de todos? Primeiro, do nosso lado. Nós, auto-intitulados gearheads, que não conseguimos convencer nossos conhecidos em momento de compra de um automóvel a optar pelas peruas. Falhamos em dar argumentos aos compradores que lhes fizessem sentido, como custos menores de aquisição e manutenção, por exemplo. Mas, de qualquer forma era uma batalha perdida.

Do lançamento do EcoSport em diante, os compradores de carros familiares se intoxicaram com o charme novidadeiro do SUV tal qual Batman e Robin se apaixonando pela Hera Venenosa na película “Batman & Robin” de 1997. Mesmo com argumentos dizendo o contrário, o SUV compacto era o novo “eldorado” de nossa classe média suburbana.

No Brasil, quem começou essa zoera de carro altinho foi essa aqui

Eles tinham o apelo de um estilo aventureiro, independente e corajoso que cada vez mais se quer projetar em nossa sociedade que, convenhamos, só faz querer achatar nosso individualismo com cada vez mais fiscalização, taxação, e, por que não, corrupção. E olha que nem vou entrar no mérito da virtualização das experiências, mas deixarei algo para pensarem: hoje, parecer algo é mais importante que ser algo.

O SUV é a projeção desse desejo e, contra isso, não temos como convencer alguém a comprar uma perua, que, preto no branco, só faz sentido agora como um carro familiar para aqueles que realmente gostam de carro. Algo que, de acordo com minhas pesquisas, representa cerca de 5,7345% da população brasileira.

Do lado das montadoras, obviamente o lado “business” da coisa falou bem mais alto. É um negócio, não instituição de caridade. Se as pessoas optam pelo SUV compacto, mesmo custando o mesmo que uma mais equipada e desenvolvida perua média, vai se fazer a perua pra quê, ainda mais considerando que a margem de lucro no primeiro é maior? A montadora fez exatamente o que se esperava: foi atrás do carro em que havia mais oportunidade de lucro.

E o mercado capitalista com tudo isso? Primeiro: como o objetivo é o lucro, é ele que direciona a decisão das empresas e indivíduos. Não se fazem mais carros como antigamente porque prefere-se fazer novos carros a cada dois anos para manter a vontade de se comprar um carro novo sempre em alta. Assim, não há motivo para fazer um carro que dure, ou que seja fácil de se manter.

Segundo: como a mão de obra é a única moeda de troca da classe trabalhadora (Karl Marx, beijo), ela se submete ao que o mercado quer. Ainda mais num prolongado período de recessão econômica como a que vivemos hoje. Trocamos nossa independência e liberdade por um salário, mas não perdemos tais ideais e partiu-se então para projetá-los em itens materiais, como roupas, academias, instagram e, claro, nos carros que nos prometem isso. Creio que agora vocês possuem ferramentas para justificar a ascensão do SUV em nossa sociedade, ao menos do ponto de vista econômico.

A perua morrerá completamente?

Não, mas vai virar um nicho tal qual os esportivos conversíveis de dois lugares. Algo que reparei muito nos últimos anos é o retorno dos compradores de maior poder aquisitivo às peruas. Não porque criaram uma consciência transcendentalmente gearhead, mas porque um chamativo SUV pode representar um risco de segurança para tal perfil.

Então, hoje, é mais fácil ver uma Audi A4 Avant blindada 0km nas ruas, do que uma simples Palio Weekend Attractive, que custa muito menos. Para quem tem muito dinheiro, chamar muito a atenção não é mais interessante e as peruas viraram esse refúgio “low-profile” das classes mais abastadas.

E para nós, o que resta? Resta rezar para sua divindade favorita, Mercado Livre e OLX.

Passar bem.