COLUNA BAIXA RODA – Salão 2018 será um marco, de novo. E este é o porquê

Não, você não verá essa placa no futuro

Apesar de a tradição de se guardar as grandes surpresas para o Salão ter sido jogada pela janela, ele ainda ocorrerá

Desde de o primeiro Salão do Automóvel de São Paulo que cobri, ainda na década de 1960 enquanto estagiário d’A Folha da Manhã, olhei para a Willys Rural e pensei: “estes utilitários ainda darão o que falar”. Por 40 anos, paguei a língua, mas, no fim, estarei correto. Após extensas conversas com meus contatos nas montadoras, percebi que apenas uma ou outra não trará o utilitário esportivo para os estandes na edição de 2018.

Leio, sem surpresas, desde a edição de 2012, ano após ano, que “este foi o Salão dos SUVs”. Não que estivessem errados à época, mas quando a manchete se repete tantas vezes, não é mais notícia. E podem anotar: a edição 2018 terá vários veículos de comunicação estampando suas capas com matérias intituladas “o Salão dos SUVs”, de novo. Falarei especificamente deles mais abaixo.

Agora, gostaria de salientar que, apesar de tudo, o Salão do Automóvel de São Paulo continuará ditando regra do que chegará futuramente ao nosso mercado automotivo. Enquanto muitos vão lotear as manchetes para cada SUV presente em troca de cliques, o evento terá muito mais que isso.

Fonte confiável afirmou à coluna que o Rota 2030, conjunto de regras para o setor que substitui o Inovar Auto, será assinada presencialmente por autoridade competente até o dia 8/11, quando a mostra abre ao público. Com o Rota, as montadoras terão a tão desejada previsibilidade de regras. Enquanto a economia permanecerá uma incógnita, ao menos as exigências já serão sabidas, o que pode destravar diversos investimentos no país que estavam aguardando a boa vontade do governo em assumir a responsabilidade de ratificar o projeto que se arrasta há meses em Brasília.

Alie-se a isso o crescimento de cerca de 25% nas vendas de automóveis 0km no comparativo entre os meses de setembro e outubro, conforme vocifera a Fenabrave, e a conclusão do complexo processo eleitoral brasileiro e as indústrias terão boa perspectiva de vendas, economia relativamente estável e as regras do jogo postas à mesa. Isso, em minha vasta experiência, costuma significar tempos de bonança para a indústria automotiva.

No entanto, nem só de automotivo viverá a edição 2018 do Salão do Automóvel. Neste ano, assim como em outros, haverá espaço para curtos testes em circuito fechado na área externa ao pavilhão de exposições do São Paulo Expo. Além de carros convencionais ou ditos “dos sonhos”, as montadoras investirão fortemente nos testes de veículos elétricos, híbridos e também em tecnologias de mobilidade.

Inclusive, a Anfavea, associação tupiniquim dos manda-chuvas das fabricantes de automóveis lançará mão de uma exposição apenas discutindo o futuro da mobilidade do país. Necessário, uma vez que o espaço nas cidades é commodity cada vez mais rara e cara, ao mesmo tempo que o transporte individual nunca se colocou tão fortemente no sentido de veículos cada vez maiores, ou que passem a impressão de vastidão, vide os suves. Essa dicotomia precisa ser discutida para entrarmos num caminho mais racional.

Alguns elementos, como a mobilidade autônoma, ainda estão distantes, mas virão. Alguns já demonstram medo para com o futuro do automóvel, hoje visto como grande vilão universal. No entanto, fonte que nutro junto à pujante e entusiasta indústria alemã afirmou à coluna que tal futuro distópico onde os automóveis como os conhecemos hoje simplesmente deixarão de existir na base da canetada é “balela”, na tradução livre da língua teutônica.

De acordo com tal colega, a proibição da venda de veículos com motores de combustão interna – ICE no acrônimo da indústria – é “para inglês ver”. Haverá sim incentivos para fontes de energia renováveis, elétricos e autônomos, mas o carro sobreviverá. Talvez mais caro e mais de nicho, mas nunca inexistente.

Baixa roda

+ FIAT trará ao salão um conceito que antecipa um futuro suve baseado na picape Toro. Apesar das informações escassas, aparentemente a marca de Betim (MG) fará um combo com o 500X e a versão de produção do protótipo, fazendo versões levemente mais em conta para os segmentos onde a Jeep, marca do grupo Fiat-Chrysler, trabalha o Renegade e o Compass, respectivamente. Como farão isso sem canibalizar uns aos outros, eu não sei. A se conferir.

+ FALANDO em Fiat, a Strada, líder há décadas de seu segmento apesar de seu anacronismo, atingiu o marco de 1,4 milhões de unidades produzidas. Como é um carro para trabalho, a fabricação contínua garante custos de manutenção mais baixos, enquanto sua construção mais robusta que moderna faz a alegria dos operadores de pequenos fretes. Mas podem ficar tranquilos. Juntamente a uma entrega de queijo minas que comprei de Betim, chegou um recado de que a picape mudará lá para 2021.

+ENQUANTO a Fiat está indo para a segunda variante de sua picape médio-compacta, Volkswagen começa a correr atrás e mostrará conceito derivado da plataforma MQB-A0, dos recentes T-Cross e Polo para concorrer no mesmo segmento.

+ COMO DISSE, os suves continuarão reinando em nosso mercado. As montadoras têm tanta certeza disso que se limitaram a fazer pequenas alterações cosméticas e praticaram um enxugamento de versões para as linhas 2019. Em time que se ganha, não se mexe aparentemente. Estou falando de Jeep Renegade 2019 e Honda HR-V 2019.

+ ESTE segmento está tão aquecido que até mesmo a Ford, que não protagoniza grande mudaça no mercado desde o lançamento do EcoSport original, trará nada menos que dois suves e meio para o Salão. Meio pois um deles é apenas uma versão sem estepe para o suve citado. O uso de pneus run-flat, que não substituem plenamente o estepe e é mais caro, preocupa.

+ AS OUTRAS duas novidades compreendem o chinês Territory, resposta da Ford ao Jeep Compass, mas é um caso clássico de “too little, too late”, do inglês “muito pouco, muito tarde”. O outro é o Edge ST, tentativa da marca de fazer um carro pato: anda, nada e voa, mas nada com maestria. Trata-se de um pesado SUV premium com grande motor sob o capô e suspensão retrabalhada para (tentar) torná-lo esportivo.

+ GRUPO CAOA está terminando sua conversão de Hyundai para Chery. Com a apresentação do sedã Arrizo 5, marca termina o ciclo de lançamentos feitos na pequena fábrica da marca chinesa em Jacareí (SP). O produto em si é um sedã com preço competitivo para brigar com o VW Virtus, mas seu significado é maior: a partir de agora, a CAOA-Chery apresentará apenas SUVs feitos em Anápolis (GO), de onde saem seus produtos Hyundai. Essa briga entre as duas marcas não existirá, podem anotar.